segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O CACHORRINHO


Publicado no Jornal Letras Santiaguenses jan/fev 2006
 
O cachorro que corre louco pela rua
Não sabe a importância do seu gesto
Nem que o carro que vem no seu sentido
Freará bruscamente para não o atropelar.
E o carro que perto deste está não poderá
Parar a tempo de evitar um choque brusco.
E o caminhoneiro cansado que dirige o arisco caminhão
Nem se dará por conta de frear ou desviar.

E os três aglomerar-se-ão e machucar-se-ão
Mas o cachorrinho, encolhido e apavorado no meio da rua
Nem imagina o que acaba de acontecer a sua volta
Nem do que os jornais publicarão no outro dia.
O cachorrinho não verá a sua foto estampada de manchete
No jornal e ao fundo, o emaranhado de ferro dos três veículos.
Ele acaba de realizar um feito e de encaminhar a sua fama
E nem sabe disso
Não sabe que a esposa e os filhos do caminhoneiro chorarão
Durante dias a morte do motorista que dirigia sonâmbulo e sem cinto.
Não sabe que os parentes ficarão aflitos durante uma semana,
Tempo em que o segundo motorista ficará hospitalizado antes do óbito.
E a pequena angústia frustrante dos filhos do primeiro motorista
Que foi retirado dentre as ferragens depois de minutos, sem vida.

Incrível como ele se surpreenderia se soubesse o que lhe aconteceria
Mais tarde. Se soubesse que seria exaltado e odiado
Que levaria legiões a odiar cães e outras a compadecer e amá-los
Discussões que seriam feitas a seu respeito
Dividindo o mundo em dois pólos parônimos à Guerra Fria
Os pró-cão e os anti-cão.
Alguns ainda diriam “ou neutro mas acho que ele não teve culpa”

Se fosse humano, muito provavelmente seria julgado
E não mais biólogos e veterinários estariam ao seu lado
Teria a companhia de advogados e a antipatia de promotores
Prestaria depoimento em um tribunal
Teria a sua personalidade analisada por estudiosos
Seus atos impressos nos documentos policiais e na retrospectiva

Se tivesse consciência, veria que a sua fama acabaria em pouco tempo
Nem um mês e o cão do acidente não seria mais manchete
E estaria na lembrança de poucos, só na dos parentes
E amigos.

Se ele tivesse consciência de tudo o que acontecesse a sua volta
Demoraria a entender o gesto dos filhos do primeiro homem
O do carro que parou. Mas aceitaria o fato
Pois era mesmo um cão das ruas e não tinha local de morada.
Entenderia porque os filhos o pegariam no colo
Alheios aos comentários funestos das pessoas
Passariam a mão nele, o acariciariam, murmurariam alguma
Coisa doce, mas triste, e o adotariam.

Ah, se ele entendesse o mundo e soubesse...

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