segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O TRINCAR DA ROTINA

Publicado no Jornal Letras Santiaguenses mar/abr 2009

O rapaz entrou na lancheria e pediu um café com leite mais um pastel. Eram seis da manhã. Mais um dia normal, assim como os quatro que viriam antes do final de semana de descanso. O mesmo pastel de toda segunda, o mesmo café de toda terça. Na mesma lancheria de toda quarta. A mesma cadeira de toda quinta. O mesmo horário de toda sexta-feira.
É a rotina que nos consome e vez ou outra é expulsa por algum drama familiar, um acidente que congestiona a rua, um atraso para o trabalho depois da balada. E o cotidiano, o lugar-comum nos faz percorrer despercebidos com os olhos as mesmas coisas e nem as notar. Aí, num certo dia você passa a pé e percebe tantos detalhes que não consegue acreditar ser o mesmo local que percorre diariamente de carro na sua pressa de urbano, de homem compromissado, de pai dedicado e, cadê o outro estereótipo belo que nos faz encher orgulhosos a boca para declarar?, ah, de marido solícito e fiel.
E eis que numa dessas quebras de rotina, o pastel demora e a impaciência aumenta. Pois o leite já esfria e nada daquele fritar ter cabo. Percorre o lugar com os olhos e vê a mesma coisa de sempre. Um homem de avental branco, todo ensopado de suor entrincheirado armado de uma escumadeira e um prato lavado no óleo. Junto do rapaz se prostrava uma moça de uns vinte e poucos anos. O auge da juventude, da beleza. Regulando de idade com nosso protagonista, a jovem o olhou, ainda com a cara amarrotada de sono e sorriu. Bom dia!
E que bom dia! E que o pastel se aprontasse no raiar das 10 horas!
Mas como todo homem acanhado, respondeu rápido e tornou a olhar para a frente, como que entretido na arte do fritar de massas. E parecia que o vendeiro tinha uma enorme encomenda a preparar antes daquele mísero e único pastel que pedira. Pois demorava pacas. A moça dos braços morenos estava achegada, bem próxima. Seja por opção ou mesmo por falta, pois o lugar era extremamente pequeno. Apertado, mas muito limpo. Na certa, a higiene era o principal motivo daquela Barbie estar ali. E isso é o que o motivara até o momento. Até o momento. Tinha um sotaque de quem não era dali, o que se notava já na terceira palavra.
E como o mal que atinge a todos os encabulados não podia se desprender do jovem, atrapalhou-se com a cadeira e quase caiu. Apoiou os braços na mesa e deu um sorriso curto, daqueles sem-graça e fechou a cara. Olhou fixo para a frente, concentrado em qualquer coisa, para parecer sereno, pois não podia imitar um avestruz e meter a cabeça no chão. A garota achou graça naquilo e como toda mulher, entendeu o que se passava naquele recinto. Muito mais esperta e de pensamento mais apurado que o pobre encantado, riu-se por dentro ao percebê-lo seduzido por ela.
Assim, para dar uma pequena ajudinha aos deuses, puxou conversa sobre os triviais assuntos das barbearias, dos salões de beleza, das rodas de amigos que não são tão próximos assim: o tempo, faz chuva, faz sol, muito calor não?, como é duro trabalhar desde cedo e conciliar com os afazeres fora dele, e por aí tantos outros.
Veio um pastel, mais outro, ela pediu o seu desjejum e banquetearam com aquelas poucas comidas e muitas frases, recheadas de elogios, de risos contidos e olhares profundos que se cruzam e despem a alma.
É exagero dizer que se tornaram bons amigos naquela manhã. Mas ao findar duas semanas, com almoços no mesmo lugar, já poderiam, sim, o serem considerados. E a amizade entre homem e mulher que havia iniciado naquele dia rotineiro já com segundas intenções, foi tomando forma e nasceu uma paixão doce. Aquele amor que surge imprevisível, age inesperado e alegra por todas as suas ações.
Talvez a melhor mudança de rotina que alguém possa ter. Com certeza a melhor que tivera até então. Tudo isso devido ao pastel que demorara.

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