terça-feira, 30 de novembro de 2010

NÃO ME JULGUES COMO OS JULGAM

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 28 Nov 2010
Sábado, 20 de novembro: “Juíza aposentada ignora blitz e provoca acidente com sete veículos em Porto Alegre” (Folha de São Paulo). A representação máxima da lei descumprindo a própria lei. A infratora: Rosmari Girardi, de 53 anos, ex-juíza em Uruguaiana-RS.

Contrapõe-se a este lamentável episódio urbano, a perda da carteira de habilitação de um garoto de seis anos. Ele comportou-se mal durante a aula e teve a carteirinha recolhida pela professora, que a fizera durante um projeto sobre trânsito na sua turma.

Comentei com essa professora, minha amiga, que leciona em uma escola de Educação Infantil de Uruguaiana, sobre o episódio da juíza-transgressora. Na mesma hora, ela contou-me sobre o projeto que realizou com seus alunos e citou-me este fato que veio na contramão do ocorrido em Porto Alegre. O projeto sobre trânsito foi desenvolvido com seus alunos de seis anos da pré-escola. Com o nome de “As rodinhas que fazem girar o mundo”, ela trabalhou a educação para o trânsito e valores que as crianças necessitam desenvolver nessa idade. Cada pequeno recebeu uma Carteira Nacional de Habilitação personalizada com o seu nome e desenhou nela seu rosto e assinou. Desde então, cada aluno poderia conduzir a bicicleta que estava pintada na carteirinha. A cada má atitude em sala de aula, os novos condutores perdiam um ponto na carteira. Somando-se cinco pontos, ela seria recolhida, ficando impossibilitados de andar de bicicleta. Um dos garotos acabou perdendo essa carteira, chorou e contou à mãe. Esta, felizmente entendeu a proposta da atividade e disse ao filho que ele não poderia mais pedalar porque não se agira bem em aula. Ele chorou novamente. Mais tarde, acabou recebendo de volta a sua CNH sob a condição de comportar-se a partir de então.

Essa valorização do direito de dirigir faltou à juíza aposentada, que possuía sinais de embriaguez. Tinha aspecto sonolento, falta de equilíbrio e fala arrastada. Depois de duas horas após o início do inconveniente acidente, pôde dormir sossegada em casa. Mas quem não deve, não teme: negou-se a fazer o teste do bafômetro e as coletas de urina e de sangue. É difícil acreditar que não estava alcoolizada. De acordo com a delegada Clarissa Rodrigues, delegada responsável pelo caso, a magistrada mal conseguia ficar em pé, articulava mal as palavras e apresentava hálito de quem havia consumido bebida alcoólica.

O Código de Trânsito Brasileiro fala com clareza quanto a dirigir sob influência de álcool em dois artigos. O artigo nº 165, que define como infração gravíssima dirigir sob influência de álcool em nível superior a seis decigramas por litro de sangue, penalizando com multa, suspensão do direito de dirigir, retenção do veículo e recolhimento da habilitação. E o artigo nº 277, que diz que todo condutor envolvido em acidente de trânsito, sob suspeita de haver excedido aquele mesmo limite de seis decigramas, deverá ser submetido a testes de alcoolemia, exames clínicos, perícia ou outro exame que permita certificar o seu estado.

Ainda assim, o laudo da perícia conseguiu ser INCONCLUSIVO. É, em letras garrafais. Será que o mesmo ocorreria com um pedreiro, professor, arquiteto ou jornalista?

A fé na isonomia das instituições toma mais uma chibatada e enfraquece a credibilidade já debilitada. De acordo com a mesma delegada que confirmou os indícios de alcoolismo da juíza aposentada, não houve materialidade, ou seja, prova de que dirigia embriagada. Portanto, a transgressora não responderá por embriaguez no trânsito. As responsabilidades penais dizem respeito, somente, aos danos materiais causados aos proprietários dos veículos acidentados.

Menos de uma semana antes, no dia 14 de novembro, a Zero Hora havia publicado uma reportagem de capa mostrando o trauma de famílias que tiveram um dos familiares mortos em acidentes de trânsito. Algumas pessoas mantêm-se insensíveis a essa realidade. O desenho da Disney com o Pateta representado pelo pacato pedestre senhor Walker e pelo transtornado motorista senhor Willer, figura-se como um retrato semelhante à autoridade justa dos tribunais e à motorista destrambelhada da madrugada porto-alegrense.

Nunca é tarde para que aprendamos. Se essa cidadã, que deveria ser um exemplo de motorista ao guiar o seu veículo, frequentasse as aulas de reciclagem dos Centros de Formação de Condutores, quem sabe aprendesse que beber e dirigir não combina. Ou se ainda morasse em Uruguaiana e participasse das aulas daquela turma da pré-escola, talvez valorizasse mais o direito de dirigir, assim como o aluno-transgressor. Ela tem idade para ser avó do menino, mas é ele quem poderia ensiná-la, pelo exemplo, como valorizar a sua CNH.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

LOBATO, O ALGOZ DOS NEGROS

O replay de incompetências que acometeram os responsáveis pelo ENEM e uma denúncia descabida de um mestrando em Educação que deveria ter permanecido estudando ao invés de promover besteiras como a de que Caçadas de Pedrinho “não se coaduna com as políticas públicas para uma educação antirracista”, mantêm o ensino brasileiro em voga nas rodas de conversa. Acreditava que depois do fim das campanhas políticas e das promessas duvidosas com relação ao futuro da educação em nível nacional, livros, professores, escolas e alunos seriam esquecidos no fundo da gaveta dos pensamentos de políticos e da mídia. Não foi isso o que ocorreu, mas infelizmente os motivos não são os melhores.
A democracia permite posicionamentos toscos como este. Mas o debate é válido. Apesar de não ter encontrado nenhum literato que se alinhe às ideias simplistas do Sr. Antônio Gomes da Costa Neto, o denunciante ao CNE, nossa literatura nacional sairá vitoriosa após o enfrentamento de ideias que a desastrosa iniciativa gerou. Todos querem dar pitaco se Monteiro Lobato foi preconceituoso ou não, se ele deve ser visto a partir de agora como um escritor discriminador, se a sua produção literária deve receber um carimbo de “radioativo” na capa ou se deve passar pelo aceite do DOPS. No final dessa história, estaremos mais maduros com relação ao assunto. Espera-se.
Concordo de que haja preconceito em algumas passagens da obra de Lobato: “É uma guerra das boas. Não vai escapar ninguém – nem Tia Anastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena. […] Tia Anastácia trepou na árvore que nem macaca de carvão.” Assim como incita à caçada de animais silvestres. Não existia, à época da publicação da obra, uma lei que regulasse a caçada a animais. Da mesma forma, nos idos anos de 1924, quando foi publicada “A caçada da onça” que atualmente tem o título de “Caçadas de Pedrinho”, a escravidão ainda era viva na memória dos brasileiros e o negro recém começava a sua luta por um lugar ao sol dentro da sociedade.
Se havia preconceito racial em algumas passagens, em contrapartida, Lobato defendia os negros em outras. E assim como ele, muitos outros escritores, de renome mundial, também foram preconceituosos e nem por isso perderam o seu valor literário. Mark Twain, escritor norteamericano e criador de “Tom Sawyer” e “As aventuras de Huckleberry Finn”, também não era politicamente correto. E nem por isso suas obras saíram das bibliotecas e foram postas em praça pública para serem queimadas numa fogueira junto a bruxas. Há que se perceber e refletir sobre o preconceito nos seus escritos, mas não censurar.
Se o que é ético modifica de acordo com o passar dos anos com a evolução da sociedade e a alteração dos valores, da mesma forma o que é legal e ilegal, o correto e o errado também evoluem dialogicamente. Fato este que o Sr. Antônio Gomes da Costa Neto não levou em consideração. Nem ele, muito menos todos os conselheiros da Câmara de Educação Básica do CNE.
Ocorre que tudo o que é escrito e falado deve ser interpretado com senso crítico. As notícias em jornais, uma novidade contada pelo amigo, reportagens em revistas especializadas e os inflamados sermões de políticos, necessitam serem lidos e escutados com cautela e ponderação.
E o professor é formado para tal, de maneira que perceba essas visões distorcidas da realidade e, junto com a turma, reflita sobre a visão de mundo que o escritor tinha em dado período histórico e como a sociedade evoluiu de lá para cá.
Apenas censurar é um retrocesso. Saímos de um regime ditatorial e não queremos voltar. Mas não nos importamos em sermos ditadores da livre expressão de um escritor que expôs suas ideias quase cem anos atrás. Ou por acaso Monteiro Lobato deveria pensar um século à frente da sua sociedade e projetar em sua mente um mundo menos desigual, onde as Universidades destinam cotas a afro-descendentes, perpetuando o preconceito?
Lamento muito não estarmos discutindo melhorias para a educação básica, principalmente. Não debatermos os números modestos do desempenho dos nossos alunos, nem o salário dos professores, o sucateamento das escolas ou o obsoleto em que se tornaram as matérias escolares. Essa aparição desastrosa do Sr. Antônio Gomes parece-me mais uma necessidade de se tornar conhecido. Se foi isso, ele conseguiu. O seu lema “falem mal ou falem bem, mas falem de mim” foi uma estratégia chula, mas que infelizmente deu certo.

2012 - o fim do mundo (assistir ao filme)




Tenho postado todas as minhas crônicas, contos e poesias neste blog, fazendo deste endereço testemunha de toda a minha produção literária. Pobre blog, recebe cada postagem... mas que eu gosto e espero que vocês gostem.
Contudo, tenho sido muito impessoal, apenas postando as crônicas, sem falar sobre o que penso sem que haja, necessariamente, o formato de crônica, conto, poesia, ensaio, dissertação ou qualquer gênero textual.
Pois aproveito, agora, para expressar-me.
E sobre um filme 'cachorro' ao qual assisti: 2012.
Não vou gastar muitas linhas falando mal sobre ele porque os milhões gastos em produção e divulgação se Fquer merecem mais que uma. Faz tempo que foi lançado e até então, não havia olhado. Felizmente. Porque o fraco pseudorremake de 'Inferno de Dante' e 'Vulcano' é muito tosco. Bandeira americana aparecendo, bonzinho que se salva, família que se une, uma dos vilões da história morre, seus filhos tornam-se bons, tudo dá mais certo que numa livre imaginação, piloto de avião altamente competente sem nunca ter voado e efeitos visuais que não coonvencem meu vizinho de 5 anos.
Engraçado como o mundo acabava e as pessoas continuavam a respeitar hierarquias e leis e não se desesperavam...
Barbaridades que me fazem crer que diretor, roteirista e todos os demais produtores são altamente incompetentes em criar uma história decente, mas exímios publicitários.
Mas como melancia oca só se compra uma vez, não pretendo assisti-lo uma segunda vez.

domingo, 7 de novembro de 2010

COMO NOSSOS JOVENS ESTÃO MUDADOS...


Publicado no Jornal da Cidade Online, em 07 Nov 2010

Vejamos três situações. Qual delas parece mais absurda? Um grupo de crianças de oito anos vendo um filme pornô, esse mesmo grupo assistindo a Passione ou sentados, após o horário escolar, lendo um livro? Sem sombra de dúvida, a alternativa “C” deve ser marcada. As crianças de hoje não são mais como antigamente. Tudo começava mais tarde, as pessoas eram mais inocentes, havia menos perigo em andar na rua, corria-se menos, as crianças respeitavam mais os pais, os alunos eram mais atentos em sala de aula. Não havia criança que dormisse na escola, todas as relações eram reais e não virtuais, os valores eram respeitados, palavra de pai era obedecida de olhos fechados e havia menos corrupção. Realmente, o mundo está perdido. Assim como está escondida em algum lugar, perto de onde Judas perdeu as botas, a noção de que as crianças de hoje são nada mais, nada menos, que o puro reflexo da incompetência dos adultos, da banalização de tudo promovida pelos seus pais, tios e avós.
É ilusão pensar que 20, 30 anos atrás, o mundo todo era um mar de inocência. Não era e nunca foi. Na Idade Média, nobres traíam suas esposas com escravas e muito antes disso, todo o tipo de pornografia ocorria nos bastidores da sociedade. Originalmente, o Brasil foi formado por três raças, o branco-lusitano, o negro-escravo da África e o índio-primeiro habitante usado e abusado. Os portugueses que se adonaram de Pindorama/Ilha de Vera Cruz, estupraram escravas e índias, miscigenando os três povos. Essas barbaridades eram comuns pela falta de leis na colônia portuguesa ou porque era a própria lei que cometia os males. No início do século XX as aparências também eram um fator de ascensão social. E de que forma eram feitas as sacanagens? Às escondidas. Ocorriam, mas todos faziam que não existiam. Fomos tornando-nos cada vez mais próximos do que é humano, decente e ainda achamos que no passado tudo era mais casto.
Sim, é verdade que quando eu era um simples estudante da 1ª série do Ensino Fundamental (e isso não faz tanto tempo assim), a Globo e SBT, únicas emissoras que o canal aberto transmitia lá em casa, os desenhos animados eram os perdidos num mundo paralelo em Caverna do Dragão, o ecológico Capitão Planeta, Ursinhos Carinhosos, TV Colosso e Muppet Babies. Antes disso tinha o Sítio do Pica Pau Amarelo e antes ainda, clássicos da literatura infantil narrados nas rádios.
As apresentadoras usavam macacão e o máximo que víamos das suas carnes eram os braços, as canelas e os lindos rostos. Assistíamos aquilo o que os adultos da época preparavam para nós. Que eu saiba, nenhuma criança era dona de emissora de televisão, nem tinha poder de decidir o figurino dos apresentadores, o que falariam, muito menos o que seria transmitido.
As crianças que assistem, atualmente, aos programas de televisão, olham aquilo que os mesmos adultos de antes e outros que cresceram, programam. E são esses adultos que criaram e promoveram o surgimento do show de nádegas da Mulher Melancia e tantas outras frutas cheias de carne por fora e ocas por dentro. É óbvio que todo esse sexo exposto não foi parar apenas nos olhos e ouvidos dos adultos, mas também das crianças que sentam na sala e assistem junto aos pais Passione e Ti-ti-ti e veem seus atores trocando carícias, falando de sexo, tirando as roupas e simulando a conjunção carnal.
E são esses adultos que criam séries de grande audiência como Malhação, onde os personagens passam de bandidos de último caráter a bonzinhos-heróis num passe de mágica. Parece fácil ser bonito, popular, inteligente e sempre saudável como o elenco representa. Assim como “Rebelde”, que talvez tenha surgido com a ideia de mostrar o lado rebelde dos adolescentes, mas as ninfetas “rebeldes” ficaram mais semelhantes às sexy atrizes de Garotas Selvagens.
Que os adolescentes de hoje estão mais precoces que os de ontem, isto é verdade. Que as crianças de hoje são mais informadas e têm as etapas de seu desenvolvimento aceleradas em relação a ontem, também é verdadeiro. E que o computador e sua infinidade de opções benignas e maléficas, os programas-lixo da televisão, as músicas que fazem apologia ao sexo, drogas e dinheiro fácil são grandes mecanismos de destruição do senso crítico das crianças, não se discute. Mas não é apenas a mídia a responsável por todas essas mudanças. Os pais, principais gestores do caráter e da personalidade dos seus filhos, não vêm fazendo o seu papel. Aí, o que acontece? As crianças, oriundas de famílias desestruturadas (não só pobres, porque rico também é negligente, acredite!), são jogadas nas escolas e todos os seus complexos e problemas de relacionamento passam a encontrar apenas no professor a esperança de que alguma coisa seja feita.
É fácil culpar as crianças quando elas não têm a complexidade cognitiva para entrar no debate de igual para igual. Eximir-se da culpa é muito mais cômodo, enquanto os pequenos (que nunca foram inocentes) apenas escutam o que os adultos falam, olham o que os adultos preparam a elas e acessam o que seus pais, vizinhos e os outros maiores de 18 promovem na grande rede. Que não temos mais adolescentes, nem crianças como antes, não temos. Assim como sempre se evoluiu com o passar dos anos. Mas se as crianças e adolescentes são mais precoces e vazias que antes, é por culpa dos adultos de hoje, que estão banalizando e coisificando relações, sentimentos e pessoas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Encontro de escritores em Gobernador Virasoro - Argentina

"III Encuentro de Escritores del Mercosur y IV Encuentro Psiques", ocorrido na cidade argentina de Gobernador Virasoro, província de Corrientes.


Mural do encontro, onde foram realizadas as palestras


Brincadeira realizada em momento de integração com a pátria-irmã
Apresentação de alunos de escola de educação especial de Virasoro
 

Divulgando o Letras Santiaguenses aos hermanos
 
Comitiva que representou o Brasil no Encontro
Dia 29 é dia de "ñoqui" na Argentina
Uma Stella Artois depois do encontro cai bem, não é?


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

POR UM RIO GRANDE MELHOR EM 2020



Publicado no O Jornal de Uruguaiana em 27 out 2010


Para crescer profissionalmente, você toparia estudar de madrugada? Pois tem gente que encara o desafio e estuda. É o que relatou a reportagem da Revista Veja Online do dia 10 de outubro. Com a manchete “Brasileiro faz curso até de madrugada para subir na vida”, a equipe de reportagem ilustrou a solução que muitas pessoas vêm encontrando no intuito de melhorar de emprego e salário. A eleição ao governo do estado já está definida e à presidência encaminha-se para o final. Governador e presidente eleitos terão uma difícil missão a cumprir dentro da área educacional: resgatar a dignidade de professores e alunos.
O Centro Universitário UniÍtalo, de São Paulo, adotou um quarto turno de aulas: das 23 horas à 1:45h. Dessa forma, atingiu um nicho de trabalhadores que não teria outro horário para estudar. São menos horas de sono, descanso e lazer. Mas o planejamento a médio prazo carrega a esperança de melhor emprego, remuneração e condições mais dignas de vida.
Procurando soluções menos drásticas que a encontrada pelo UniÍtalo e que possam servir de propostas palpáveis aos futuros governantes, no ano de 2006 foi criada a Agenda 2020 no Rio Grande do Sul (http://www.agenda2020.org.br/). É uma parceria entre governo, ONGs, universidades, demais instituições e empresários. São debatidos os problemas de áreas básicas como educação e saúde, além de outras nove (desenvolvimento de mercado, desenvolvimento regional, inovação e tecnologia, gestão pública, cidadania e responsabilidade social, infraestrutura, ambiente institucional, meio ambiente e disponibilização de recursos financeiros). Assim, objetiva-se tornar o nosso estado um lugar melhor para viver e trabalhar até o ano de 2020.
Foram elencadas algumas propostas para sanar as deficiências no ensino gaúcho: ampliação de escolas em tempo integral, investimento na qualificação dos professores, implementação de um modelo de educação de qualidade e ampliação do ensino profissionalizante. Mas alguns entraves são vislumbrados: a inflexibilidade orçamentária do governo, a desatualização do plano de carreira do magistério e o crônico problema de negociação entre governo, magistério e sociedade.
Para termos uma noção de como andam os nossos alunos, vejamos a seguinte situação: a taxa de aprovação no ensino fundamental na rede pública estadual em 2008 no estado atinge o patamar de 80,8%, enquanto no Brasil o índice é de 82,3%. Já nas escolas particulares, esse número sobe para 96,3% no Rio Grande do Sul e 96,4% em nível nacional.
Ainda, conforme estudos realizados pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pela UFF (Universidade Federal Fluminense), cada ano a mais de escolaridade da força de trabalho faz aumentar em até 20% a renda per capita. Comparando com nossos vizinhos, a escolaridade dos brasileiros, média de 4,7 anos de estudo no Brasil e 6,4 anos no Rio Grande do Sul, está muito aquém da Argentina (8,5 anos), Chile (11 anos), Peru e Uruguai (7,3 anos).
Lógico que apenas índices de aprovação e escolaridade não servem, unicamente, como radiografia da educação. Há que se investigar com que qualidade esses alunos avançam de série. E a resposta não cabe em meia dúzia de parágrafos. Esses indicadores de aprovação alarmam-nos quanto à disparidade existente entre escolas públicas e privadas e a escolaridade faz-nos questionar o porquê de países mais pobres que o nosso terem mais sucesso no acesso à Educação Básica. Proativamente, a Agenda 2020 concretiza-se como uma importante ferramenta para os governos que assumirão o comando da nação em 2011 definirem os rumos de seus esforços na área e para a sociedade apoiar-se e reivindicar as soluções que são propostas.

domingo, 17 de outubro de 2010

ESPERANÇA, ESPERANZA, HOPE

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 15 out 2010
e no Jornal da Cidade Online, em 17 out 2010.

 Minha avó descobriu há pouco tempo que realizaria sessões mensais de quimioterapia. Esta última palavra assusta. A lembrança de histórias de pacientes terminais e mesmo filmes e novelas abordando o tema não trazem à lembrança, boas recordações. Mas também há incontáveis relatos de melhoras, de recuperação completa, sem maiores sequelas. É onde reside a esperança. É como ela se posiciona diante desses acontecimentos. É assim que um bom tratamento deve começar.
Assim como ela, no sábado anterior ao resgate, os 33 mineradores chilenos que estavam soterrados na mina San José realimentaram suas esperanças de terminarem bem a história. Na data, fora concluída a perfuração do túnel por onde subiriam à superfície. Na noite de terça para quarta iniciou-se o resgate, terminando 22 horas depois. Mesmo sem saber que a operação teria sucesso, os próprios mortos-vivos, seus familiares, aqueles que trabalharam na empreitada e os que acompanhavam os acontecimentos nos noticiários puderam beber mais uma dose de esperança ao ser noticiado o fim da escavação do túnel.
Alguns traumas surgem na nossa vida e agarramo-nos em nossas convicções para que a autoestima não desça aos calcanhares. Tomamos um “solapaço” nas nossas expectativas e prendemo-nos na ideia de que estamos sempre sujeitos à frustração em nossas empreitadas. Descobrimos uma doença e absorvemos até as vírgulas das palavras dos médicos, falamos aos que nos rodeiam que o problema há de se resolver e repetimos essa teoria a todos que nos questionam quanto à gravidade da enfermidade. O argumento sempre convence. Convence-nos. Porque se não estivermos convictos de que melhoraremos, como poderemos superar a dificuldade? Saber que tantas outras pessoas passaram pelo mesmo drama e superaram faz com que a esperança de melhora se materialize em histórias de vitórias perante os incautos da doença. Claro que esperança, apenas, não resolve nada. Precisa-se lutar e jamais desistir.
Há aqueles que pereceram perante a doença, não conseguiram driblá-la. É a realidade. Os que sobreviveram diante dos meses ou anos deitados e agora estão melhor também são a realidade. E muito mais que isso: são a esperança de que necessitamos.
Não fosse a esperança de encontrar os filhos desaparecidos, que razão teriam algumas mães para viver e buscar em cada rosto na rua o do seu ente amado? Se não tivéssemos a convicção que pelo trabalho conseguiremos melhorar de vida e que nossos descendentes dependem totalmente de nós até a vida adulta, por que trabalharíamos cada vez mais? A esperança de estar seguro financeiramente, estável, faz com que lutemos mais e mais para subirmos na vida.
Em português, esperança. Em espanhol, esperanza. Em inglês, hope. Independente da língua, pronúncia e das nações que a pronunciam, a esperança por dias melhores faz-se presente em todos os rincões pelos quais passarmos. A música é a excelência da demonstração da necessidade que temos em agarramo-nos no que nos gera esperança, sobrevida: “vivemos esperando dias melhores, dias de paz, dias a mais (…) dias melhores, pra sempre”, da música “Dias melhores”, do Jota Quest.
Na década de 70, a música “Imagine”, d'Os Beatles, alavancou um universo de esperanças por um mundo melhor, de paz, sem fronteiras, sem ideais maléficos, sem materialismo, nem individualidade. A esperança por um mundo menos desigual levou John Lenon, que estaria completando neste mês 70 anos de idade se fosse vivo, a compor uma das músicas mais ilustrativas da esperança humana. No Brasil, vivíamos os “anos de chumbo”, nos Estados Unidos, a Guerra do Vietnã. Em ambos, não havia consentimento da maioria da população. Eram ações governamentais impopulares. Qualquer canção que levasse seus ouvintes a delirar por um novo Jardim do Éden ou mesmo um mundo menos injusto e mais democrático era a deixa necessária para encher corações e mentes de esperança. E aqueles tempos cinza acabariam, assim como a guerra na Ásia. Os esperançosos procuravam acreditar que a Ditadura estava encaminhando-se para o fim, que não duraria muito, ou, pelo menos, que não os atingiria.
Sem motivação, arrastamo-nos no dia-a-dia. Sem esperança, paramos no tempo, regredimos, adoecemos e morremos, invariavelmente. Sem esperança, perdemos a batalha antes mesmo de iniciá-la, caímos quando ainda estamos sentados, perdemos quando o placar ainda está 0x0. Se não acreditarmos que o futuro há de ser melhor que o presente e ainda melhor que o passado, ele não será melhor, definitivamente. Claro que devemos aproveitar o presente, sobremaneira. Mas se não tivermos esperança de melhorar, de que adiantará lutar?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

NÃO DÊ O LADO À MESQUINHEZ


Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 06 Out 2010
e no Jornal da Cidade Online, em 10 Out 2010.


Aprendi com um professor de basquete que no jogo não se pode dar o lado para o adversário, sob a pena de cometer uma falta ou deixá-lo passar e realizar a cesta. E depois de cinco faltas, o outro time tem o direito a arremessos livres, independente do local da falta. Ela é dura, mas tem o mérito de condicionar o jogo a um número inexpressivo de faltas. Esse mesmo professor falou que para não deixar o oponente passar pela marcação, deve-se dar uma passada lateral rápida, de modo que você fique de frente para ele. Caso estiver com apenas parte do corpo interferindo na passagem, marque-se falta!


Lembrei-me logo dessa situação quando uma amiga contou-me que tentava estagiar numa escola e precisava dos horários que uma colega também faria o estágio naquela escola, para não serem os mesmos horários nem nas mesmas datas. Havia mais complicações ainda: estava entrando em férias exatamente para fazer o dito estágio. Sem a definição dos horários da colega, prejudicava o início das férias, incerto ainda devido a esse infortúnio. Percebeu que isso era má vontade da companheira porque esta desejava que outra colega de classe estagiasse naquela escola. Nesse contexto, mostrava-se insensível com o drama dessa minha amiga. Prejudicava-a simplesmente porque queria que outra ocupasse o seu lugar. Muita mesquinharia. Outro colega aconselhou: conversa com a diretora, já define os teus dias e deixe que ela arrume o horário de acordo com os teus. Não queria fazer aquilo, porque achava que poderia prejudicá-la de alguma forma, forçando-a a arrumar o seu horário, uma vez que a colega também trabalhava.

Quando me relatou o acontecido, logo associei ao treinamento de basquete. Chulamente, é a mesma coisa: dar uma passada lateral para obstruir a passagem do adversário não é falta, uma vez que você está sendo mais rápido que ele, está jogando de acordo com as regras, não faz falta e o adversário comunga das mesmas regras do jogo; é a mesma coisa que procurar a autoridade de direito para acelerar um processo que está sendo retardado por outrem que tem o intuito apenas de prejudicar. Você não estará prejudicando a outra pessoa, e sim, apenas indo em busca dos seus direitos. Lógico que num jogo uma equipe tenta prevalecer perante a outra e na vida profissional, ao menos deveria ser assim, os dois profissionais podem convivem pacificamente concomitantes.

É desejo de todo o mundo crescer na vida, ser feliz, alcançar os seus objetivos, ter o seu trabalho reconhecido. E isso só se conquista com o esforço individual, com o seu sacrifício. Para algumas metas o caminho a ser galgado é mais tranquilo. Para outras conquistas é mais inclinado, tem mais pedras, diversos desvios e contornos a serem adotados. E muitas vezes o sucesso trava frente as nossas limitações, a outras pessoas que são indesejavelmente inoportunas ou mesmo ao pouco esforço ensejado na busca pelo objetivo.

Não é preciso que mesquinharias permeiem nossas atitudes. Não precisamos derrubar outro colega de trabalho para conquistarmos o nosso espaço. Se temos competência, haverá lugar ao sol. Caso contrário, nem um suposto “concorrente” fora do páreo manterá nossa vaga. Que haja reconhecimento por nossos méritos, não porque fomos os únicos que sobramos.

Pessoas assim, individualistas, não faltam por aí. No mercado de trabalho encontramos aos montes, disfarçadas como colegas, amigos, chefes e empregados. Dar o lado no basquete é deixar que o adversário faça uma cesta. Na vida cotidiana, é assumir postura submissa, deixar que os outros lhe prejudiquem e você não fazer nada para reaver a situação. Buscar nosso espaço, dentro da legitimidade das regras básicas que o convívio impõe é uma obrigação. E se outra pessoa prejudica-nos, defender-se com as armas que estão à disposição é a melhor feita. Ainda mais se o que se está buscando é o eticamente mais correto.


E TODOS FORAM FELIZES PARA SEMPRE...

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 1º Out 10
e no Jornal da Cidade Online, em 03 out 2010

Cheguei em casa cansado, depois de um dia na labuta. Liguei a televisão. Escrito nas Estrelas. Zapeei e no SBT passava o Programa do Ratinho. Na TV Pampa, uma reportagem fútil sobre a vida de algum artista. Voltei à novela e comecei a me lamuriar com a ingloriosa programação. Desculpa-me minha vozinha querida, meus amigos e tantos outros milhões de brasileiros afetos a novelas, mas no canal aberto não tinha nada decente sendo transmitido naquele momento... Apareceu um casal junto, antes separados pela megera Judite. Deduzi que a novela chegava ao final. Daí surgiu a ideia desta crônica. O normal seria desligar o aparelho e fazer qualquer outra coisa. Mas segui, acompanhando o desenrolar do capítulo.
Lembrei, neste momento, que quando pequeno, era um alvoroço em casa na última semana da novela. E os últimos capítulos vestiam-se de muita expectativa. Já, desde aquela época e muito antes disso, o final era feliz, os bonzinhos casavam-se, tinham filhos, não perdiam o emprego, nem descobriam alguma doença. Aliás, era no final que se curavam das enfermidades.
As novelas, em partes, imitam a realidade. Algumas histórias, trágicas, infelizmente são o retrato de famílias desestruturadas ou de pessoas com problemas psicológicos sérios. Mas na vida real, nem sempre os finais são felizes.
Desde pequenos buscamos coisas boas, histórias com final feliz. Assim são os contos-de-fada: há o mal e o bem. E este último sempre vence o primeiro. Crescemos e continuamos buscando finais felizes. Mas descobrimos que as histórias que ouvimos na infância não são verdadeiras. E as garotas descobrem que o príncipe está mais para sapo. E os rapazes deixam de procurar a Cinderela, focando-se em mulheres menos encantadoras. Mas continuamos em busca das histórias que terminam bem.
O que se pouco sabe é que mesmo as histórias de Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel, inicialmente, não terminavam bem. Eram contos transmitidos oralmente, mas não tinham nada de infantil. Numa das versões, Chapeuzinho bebia com gosto o sangue da vovó, assassinada pelo lobo-mau e noutra, o lobo jantava a garota, literalmente. Só com os Irmãos Grimm é que a história foi para o papel, a figura do caçador surgiu, os bons tornaram-se vencedores e o maus, perdedores.
Na história da Bela Adormecida, a protagonista adormece e é abandonada pelo pai. Fica adormecida, sozinha, em casa. Após isso, o rei, casado, passa pela casa e encontra a jovem dormindo. Relaciona-se sexualmente com ela e a engravida de gêmeos. As crianças nascem e amamentam-se da mãe sonolenta. Ao tentar mamar, uma das crianças chupa-lhe o dedo, tirando a farpa envenenada, fazendo com que a Bela acorde. Um ano depois, o rei retorna à casa da jovem e passa a tê-la como amante. Os finais não eram felizes, nem moralistas. Mas com o passar do tempo, mudaram e foram aceitos popularmente. É o dito final feliz que todos buscam. E nessa busca pelo elixir, mescla-se o que é realidade com ilusão.
Diferente da novela, onde tudo acaba bem e foram felizes para sempre, na vida real, muitas histórias findam numa tragédia, ou acabam apenas tristes. E o mal não tem apenas cara de lobo-mau, ou de monstro, sequer é feio, maltrapilho ou ignorante.
Inclusive, essa linha entre o mal e o bem geralmente não é bem definida. Não tem um rio que os divide, uma cordilheira que os separe. É imaginária e oscila para um lado e para o outro. Estendemos a mão a algumas pessoas e, ao mesmo tempo, prejudicamos outras. Às vezes, a mesma pessoa realiza, concomitantemente, boas e más ações.
Desejamos a realidade। Mas queremos, também, um final feliz. E buscamos essa felicidade completa nas novelas. Sejam elas as pornochanchadas e remakes da Globo, os dramalhões do SBT ou as séries com acontecimentos improváveis dos canais por assinatura. Projetamos na televisão a realidade que somos em busca do final feliz que queremos. E a televisão dá-nos essa falsa realização. Por essas e outras, prefiro livros, filmes, uma volta no centro ou um chimarrão na Praça do Barão.
***
“Estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre: vai passar na televisão”. Renato russo

APROVEITANDO O CURTO ÓCIO

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 22 set 2010.

Independente do ritmo de trabalho que temos, sempre haverá alguns momentos de ócio. Trabalhamos pela manhã, à tarde e à noite para poder levar a comida aos filhos. E o organismo esgota-se até o seu último nível. Mas os minutinhos de não fazer nada permanecem existindo. E foi num desses momentos de ócio criativo que pensei em atividades construtivas para serem feitas nessas horas.

Sinto-me um total inútil na fila de banco. Quando é início do mês ou sexta-feira, então, é terrível. São horas à espera. Por mais que a lei ampare o cidadão estabelecendo um prazo máximo de espera, nunca vi isso funcionar. O que fazer na fila?

Pode-se pegar o celular (hoje quase todo mundo tem, até crianças de 10 anos, infelizmente) e começar a limpar a caixa de entrada. Nela tem as mensagens importantes que recebemos durante o dia e as confirmações de torpedo enviado e consulta de saldo. Passa-se alguns dias sem limpá-la e já lota. Você não pode receber mais mensagens porque a caixa de entrada está lotada. Corriqueiramente isso me acontece. E nada melhor que a fila do banco para deixar em dia o espaço no HD do celular.

Outro costume maravilhoso que não é muito difundido é ter sempre à mão um livro de bolso de piadas. E que sejam novas, também. Piada que se conhece não tem graça. Porque se temos aqueles cinco minutos esperando o carona que entrou numa loja para fazer o pagamento de uma conta, não tem como pegar Cem anos de solidão para ler. Até relembrar todo o enredo e em que parte da história lia anteriormente, já se passaram os minutos. Então, associe o pouco tempo a uma piada, que geralmente é curta e pode ser interrompida sem maiores traumas. Ler faz bem e piada faz rir, o que também é muito positivo.

Rever os compromissos da agenda é um boa opção para ocupar o tempo quando lhe sobrar valiosos curtos minutos. Mas você não tem agenda? Então pegue a folha de papel que anotou o que precisava fazer no dia e reorganize os compromissos. Possivelmente serão necessárias algumas alterações. Porque nada acontece exatamente como o planejado. E planejar o que se tem para fazer normalmente é um tanto atirar no escuro: se houver um imprevisto, muda toda a programação. Poderá economizar tempo deixando para outra horas coisas menos importantes.

Dentre essas coisas e outras mais, julgo mais importante ligar para um parente que há tempo não se recebe boas novas. As operadoras possuem sempre algum programa de bônus e geralmente eles esgotam no fim do dia. Não dá pra enriquecer com os ditos bônus, como no meu caso, onde tenho 35 minutos diários que se esvaem às 23:59h. Então, ligue para o primo que há meses não fala. Nem que seja só dois minutos. Fará a diferença. E se ele estiver triste, precisando de ao menos um “oi” amigo? Já que não custará nada e o tempo seria ocioso mesmo...

Mas o tempo de folga forçada também serve para ser aproveitado como, efetivamente, folga. O dia já é desgastante o suficiente para poder curtir aqueles segundos sem atividade mental e física. Então descanse. Você merece.

Os momentos que passam e, por algum motivo, não aproveitamos, não voltam mais. Somem no ar e fixam-se na memória, apenas. Se existirem, que sejam bem aproveitados. Não só os momentos ociosos, não apenas os minutos que são mortos, onde não temos como acelerar e adiantar algo que precisamos fazer.

Mas todos os momentos, todos os instantes onde temos problemas a gerenciar. Se aproveitarmos isso para preencher a nossa linha do tempo, ótimo.

OS ANÕES IGNORADOS

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 15 set 2010
e no Jornal da Cidade Online, em 27 set 2010.

A máxima de que “a união faz a força” foi retratada numa notícia, no mínimo interessante, da Revista Veja Online, dia 10 de setembro. Eis a manchete: “Em luta por árvore, formigas afastam elefante”. Quando o menor derruba o maior, faz-se alarde. Quando quem, naturalmente, estaria em desvantagem, muda a lógica do jogo e assume o poder, o fato é anunciado aos quatro ventos. E tem que ser, mesmo.
Essas minúsculas formigas são quenianas e conseguem afastar elefantes das árvores onde habitam, entrando nas suas trombas, incomodando-os. Dessa forma, os pesados mamíferos nem se aproximam das árvores. É a natureza se regulando, estabelecendo o equilíbrio de forças entre pequenos e gigantes. As árvores servem de lar às formigas, que as protegem dos elefantes, os quais se alimentam de outras árvores ilesas desses insetos.
A vitória do menor diante do maior também ocorreu com Davi e Golias, onde o gigante foi abatido por uma pedrada certeira. As micro e pequenas empresas lutam com todas as armas que dispõem para sobreviver entre um imposto e outro, queda nas vendas, assaltos e inflação. O guri da 5ª série quer ser como o adolescente do 3º ano, mas lhe tem medo. E em tempos eleitoreiros, os pequenos partidos lutam deslealmente contra as grandes alianças.
Percebe-se, facilmente, a diferença que tem as propagandas da Dilma e do Serra comparadas com a da Marina Silva e todos os demais candidatos. Enquanto nos presidenciáveis do PT e PSDB sobra tempo (10min38seg e 7min18seg, respectivamente), dinheiro e recursos multimídia, nos outros a simplicidade impera. Para quem desconhece o nome dos candidatos menos badalados, sabendo unicamente que existem Dilma, Serra e Marina Silva (PV), lá vão os demais: Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), Ivan Pinheiro (PCB), Levy Fidelix (PRTB), José Maria Eymael (PSDC), Rui Costa Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU). Mas... como o estimado leitor conseguiria gravar algum desses nomes, se Marina Silva e Plínio Arruda têm pouco mais de 01 (um) minuto para pronunciar-se e os demais candidatos-nanicos, míseros 56 segundos?
Se somarmos os tempos de Marina Silva e dos demais minuteiros, não atingiremos o tempo que a presidenciável Dilma dispõe na televisão/rádio. E, se contabilizarmos os orçamentos das campanhas dos primeiros, necessitarão serem multiplicados por muito para que se atinja a igualdade com os valores de Dilma e Serra.
Nas propagandas do PT/PSDB, a abundância financeira e temporal proporcionam histórias tristes de pessoas que lutam diariamente para conseguir o sustento, acompanhadas de músicas apelativas. Tudo isso com o único intuito de persuadir o telespectador/ouvinte. E é lógico que não tem como saber se a história é, verdadeiramente, real; se não é uma exceção à regra; se não é a visão distorcida de um fato que foi apresentado daquela maneira apenas porque era conveniente. Se no comércio existem leis que favorecem os pequenos empresários a crescer, no regime eleitoral a lei é quem oprime os candidatos dos partidos menores, estreitando o tempo.
Claro que sempre há alguns candidatos bizarros que fazem piruetas para chamar a atenção, com um discurso vazio, o que faz o processo democrático de eleição perder um pouco a seriedade. Desconsiderados esses banais travestidos de candidato, há, também, o desespero em apresentar uma proposta de Governo, em nível federal, num irrisório minuto. Você acha que cabe em 56 segundos as propostas para um país como o nosso? Se alguns candidatos são insignificantes nas pesquisas eleitorais, da maneira como o processo eleitoral segue, jamais conseguirão galgar degraus nas intenções de voto. Ninguém os conhece, nem há tempo para que sejam conhecidos!
“Se, reduzidos ao desespero, os inimigos vêm dispostos a vencer ou morrer, evita o combate. Deixa uma saída a um inimigo acossado; caso contrário, ele lutará até a morte”. É o que traduziu, em 1772, o padre Amiot, dos escritos de Sun Tzu. Ele passou do chinês para o francês. Sun Tzu ainda gera dúvida se existiu realmente ou foi apenas uma lenda. O fato é que “A arte da Guerra” foi escrita há cerca de dois mil e quinhentos anos e o livro é utilizado atualmente por empresas, de onde depreendem dos ensinamentos militares as decisões que os executivos necessitam tomar frente às problemáticas empresariais. Mas o que Tzu não previu nesses seus tratados sobre o combate, é que o eleitor seria o telespectador de um absurdo: mesmo com os candidatos-nanicos acossados, lutando com as armas que têm (paus e pedras, apenas), o sistema os tolhe e, ainda que lutem até a morte, desesperadamente e com todas as suas forças, pouco crescerão, porque não lhes é aberto espaço para falar.
Mesmo que alianças sejam feitas para aumentar o tempo de propaganda eleitoral e somar simpatizantes, distribuir desuniformemente os tempos é uma prova que não evoluímos tanto assim no processo eleitoral. A urna eletrônica é um avanço maravilhoso. O cadastro biométrico é excelente. Mas ainda há falhas.
O circo está montado, dois palhaços digladiam e a plateia presta atenção em polvorosa, ignorando os anões que se debatem à volta da arena.

DECIFRA-ME OU TE DEVORO

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 09 set 2010.

Perdemos tanto tempo com coisas inúteis na vida... O mais sério é que na maioria das vezes que estamos ocupando nossas forças em algo que não valerá mais que alguns “por que eu fiz isto?”, temos uma sensação que acompanha o agir, dizendo ao pé do ouvido: não faça, não faça. Mas, é óbvio, não seguimos a razão e o coração assume a direção. Vá tomar um banho gelado, faça a barba, escove os dentes, faça algo diferente que lhe desvie da vontade de fazer o inútil.
Para ilustrar essas reflexões, baseio minha crônica numa história que um amigo relatou-me, profundamente cabisbaixo. Sua namorada disse-lhe, certa feita, nessas palavras “Tento decifrar, entender certas coisas, mas é esforço em vão...”. Isso o fez carregar consigo por dias um ponto de interrogação debaixo do braço. Ele supunha o que a garota queria dizer, mas não botava fé que realmente fosse.
A garota escreveu-lhe, ainda, um bilhetinho e entregou após os dois saírem de um jantar:

É como um filme de suspense ou policial onde tem as pistas e temos que juntar para decifrar o crime, quem é o assassino.
Geralmente sou boa nisso, mas tenho que admitir que dessa vez a emoção não dá espaço para o raciocínio e é difícil compreender as pistas.

Nem implorando ela falou-lhe o que significava. Ele que dissesse o que entendia. Quanta mística naquilo tudo! Decorreram mais alguns dias e o relacionamento estava acabado. O motivo? O mistério que ela tanto falava eram os relacionamentos paralelos que ele tinha enquanto se dizia apaixonado por ela. Descobrira em mensagens de celular que o esperto do meu amigo deixara. Além de cafajeste era burro! Mas tudo bem, teve o que merecia...
O público feminino que me odeie, mas entro em defesa desse meu amigo. Ao menos quanto ao que sentia por ela. O resto não entra na análise: foi mais que errado, uma demonstração de fraqueza moral, de covardia de dizer a ela que queria uma relação mais aberta, menos envolvente que um namoro. Quanto à defesa, digo que ele realmente gostava dela. Talvez não houvesse dito que a amasse ainda porque o relacionamento deles era recente ou porque fazia pouco que terminara outro, longo e de fim também amargo. Sei que ele sentia por ela muito mais que apenas amizade, mas seus atos negativos não refletiram, definitivamente, o que sentia por ela.
Ele estava querendo a liberdade (ou libertinagem) que não tivera no outro namoro. Saía de um e engatava em outro. Não era de acordo com seus planos, mas era melhor do que poderia imaginar. Porque aquela garota que escreveu o bilhete era alguém que certamente ele não veria duas vezes na vida. Porque ela acertava tanto com os seus pensamentos que chegava, por vezes, a grau de espanto mútuo. Você só pode ter copiado isso de mim. Nem sabia.
Ele estava querendo a liberdade e não tivera aquele momento mínimo de sinceridade com a garota. Não quero envolver-me agora contigo. A Medusa que se tornara a sua amiga, ficante e depois namorada, tinha poderes muito além dos seus.
Estava, de fato, investindo as suas energias inutilmente. Esgotava-as com outras mulheres, que não lhe preenchiam por dentro. Imprimia todas as forças na falsa sensação de bacanal, que aos dezessete anos também tivera, onde a quantia de mulheres era superiormente mais importante que a qualidade.
Mas tudo isso são conjecturas. Ele não me disse nada depois que mostrou o bilhete manchado de lágrimas e repetiu a frase enigmática da já ex-namorada. E chorou em meu ombro. Estava fraco agora. Gastara as forças onde não devia.

EFEITO BORBOLETA

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 1º Set 2010.

Neste último final-de-semana estava prestigiando a formatura de alguns amigos e deparei-me pensando em como o meu destino poderia ter sido diferente caso eu houvesse tomado outras decisões no decorrer da vida. Se não me mudasse daquela cidade, talvez estivesse junto aos formandos, seria um deles. Se não terminasse o primeiro namoro, estaria em outra formatura, noutra cidade. Se continuasse com a segunda namorada, talvez não estivesse nem em uma formatura, nem na outra. Destino modificado devido a uma série de escolhas. Algumas direcionam a vida para um caminho ou outro. Outras levam a esses momentos decisórios. Não se trata de atitudes deterministas como a fajuta mudança de destinos devido a detalhes, encontrado nos filmes da série “Efeito Borboleta”, e sim, de diversas ações que nos levam a algum lugar.

Aproveito e faço um gancho com a crônica da Martha Medeiros deste último domingo, dia 29 de agosto, na Zero Hora, “Em que esquina dobrei errado?”. Ela recorda de uma situação que passou, onde errou de esquina e foi parar “em lugar algum”. “Quanta gente perde a vida que almejou por ter virado numa esquina que não conduzia a lugar algum?” Já penso diferente da colega cronista: as decisões que tomamos, ainda que depois vejamos não terem sido as melhores, nos levarão a algum lugar sim, mas será um destino que não planejamos.

Uma amiga, sábia, disse certa vez: “Somos quem queremos ser, se optarmos podemos mudar. A decisão é nossa, não pedimos licença e nem mesmo perdão pelo que somos.” Um jogador, geralmente, não é expulso de um jogo de futebol pelo simples fato de uma entrada mais severa, mas por estar a todo momento cometendo faltas que são relevadas pelo juiz. Não perdemos um emprego simplesmente porque não agimos da melhor maneira numa situação, salvo os momentos de crise financeira, mas porque em diversos momentos deixamos a desejar. Não é só uma ação que nos determina. Precisamos de um conjunto de ações e motivos que nos conduzirão à ação principal.

Seguindo a lógica que apresentei, não podemos fazer recair a pequenos fatos toda a culpa pelos nossos fracassos. O sol brilha a todos e o relógio caminha na mesma velocidade, sempre, independentemente de credo, etnia ou classe social. O que fazemos com esse tempo é que vai, aos poucos, definirnos para a direção “A” ou para o caminho “B”.

E qual desses dois rumos é o melhor? Difícil dizer. Muitas vezes não conseguimos definir este antagonismo. Pode ser que ambos sejam bons, ruins ou que tenham doses de cada.

Desculpem-me os amantes de “Efeito borboleta”. Para um momento de curtição, divertimento, aqueles onde colocamos a chave do senso crítico em “off” e apenas queremos acreditar e iludir-nos com a história à frente, o filme é um bom entretenimento. Acreditar que, ao invés de deixar o amigo perto da explosão, salvá-lo irá mudar todo o seu destino, é ser um tanto bestial. Salvo casos isolados, haverá muitos outros fatores que no decorrer da vida definirão se a pessoa irá se tornar um viciado ou um intelectual. Ou os dois. O filme mostra que quando um fato da infância do protagonista é modificado, um novo futuro lhe é reservado. E essa mutação é constante. Jogar a culpa em Deus, no destino ou num fato que não é mais possível mudar é algo muito fácil. Difícil é enfrentar a realidade.

Há momentos na vida os quais queríamos que os fatos surreais do Efeito borboleta realmente pudessem ocorrer. Muita dor seria evitada. Mas não teríamos o senso crítico atual, porque não haveríamos sofrido o tal trauma, susto, seja o que for. E, quem vai saber se era, realmente, melhor ter trocado de opinião antes? Talvez seja melhor estar aqui onde está e deixar que o universo se ajeite de acordo como as coisas vão ocorrendo. Porque se não for, já está mais que na hora de ir em busca do tempo perdido.

OS 65 ANOS DE HIROSHIMA E NAGASAKI

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 25 ago 2010.

Quando grandes tragédias ocorrem, os primeiros cinco anos servem para todo tipo de análise e reportagens especiais serem feitas. Depois disso, perde relevância e só voltam a ser o foco da mídia quando são completados -vamos fazer aqui, um neologismo- “anos meio-redondos” 5, 15, 25 e “redondos” 10, 20, 30 anos. O intuito é relembrar esses fatos históricos de vulto.
Ano que vem, dez anos depois da destruição das Torres Gêmeas em Nova Iorque, o terrorismo será posto à luz, reanalizado, refletido e lamentado. Em 2004 foi assim com Senna e neste ano com Cazuza, data que completou 20 anos sem o “exagerado”.
O terremoto ocorrido no Haiti e que sangrou diversas famílias neste janeiro e o “primeiro ano sem Saramago”, falecido em junho, serão relembrados em 2011.
2010 é o ano de relembrar, com pesar, os 65 anos do término da 2ª Guerra Mundial e o indissociável ataque nuclear às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A bestialidade norte-americana de exterminação humana (atingindo muito mais pessoas que a Al-Qaeda nove anos atrás!) e demonstração de poderio militar à extinta União Soviética assopraram velinhas cor-de-sangue neste agosto.
Nos dias seis e nove do mês do azar, o avião alcunhado de Enola Gay sacramentou a morte instantânea de milhares de pessoas, lançando sobre as cidades as bombas chamadas pelo carinhoso epíteto de Little Boy (pequeno garoto). Do hipocentro da explosão, num raio de 2 km, tudo foi destruído. A bomba atômica gera a explosão mecânica, provoca uma onda de calor e, para sacramentar, emite radiação. Esta última não foi a maior responsável pelas mortes momentâneas, e sim pela modificação do código genético daquelas pessoas e de seus descendentes. Consequência? Várias gerações com câncer e outras doenças.
A desgraçada explosão foi eternizada, para que nunca se esqueça nem haja dúvida quanto aos problemas que a exposição à radiação traz, na música “Rosa de Hiroshima”, pelo extinto Secos e Molhados, na voz de Ney Matogrosso.
Felizmente, depois de 1945, a radiação nuclear não foi mais utilizada como bomba para matar populações. O seu uso também pode ocorrer para a produção de energia, mas a má administração desta fonte de energia pode trazer conseqüências catastróficas.
Exemplo disso foi a madrugada de 26 de abril de 1986: a usina nuclear de Chernobyl, localizada em Pripyat (extinta União Soviética e atual Ucrânia), teve medidas de segurança negligenciadas e, consequentemente, vazamento de energia nuclear, radioativa portanto. Milhares de pessoas morreram.
Houve uma série de desinformações sobre o desastre que havia ocorrido, quase levando a uma precipitação radioativa 100 vezes maior que a soma das emissões em Hiroshima e Nagasaki. Para evitar o pânico, a população não foi informada sobre o que, efetivamente, estava ocorrendo. Essa incompetência das autoridades governamentais permitiu que toda a Europa passasse a receber as letais doses de radiação. Apenas depois de 30 horas após a explosão as pessoas foram evacuadas da cidade, porque os níveis de radiação existentes em Pripyat poderiam matá-las.
Ainda, hoje, o acesso às informações sobre Chernobyl é escasso. Porque quanto menos se falar sobre o assunto, menos pessoas lembrarão o acontecido, menos cobrança haverá. Essas “datas redondas” e “meio-redondas” têm grande valor, porque aqueles que não vivenciaram os dramas podem aprender sobre o acontecido. E aqueles contemporâneos aos desastres e que não puderam informar-se quando da ocorrência dos fatos, têm agora essa oportunidade.
No ano passado, elaborei o conto “O tempo parou” sobre os ataques a Hiroshima e Nagasaki e um vídeo com esta história e informações sobre o desastre nuclear. Está visível no meu site.
A nossa memória, que é seletiva e curta, não pode ficar à mercê de datas comemorativas, célebres. Não esquecer o que ocorreu de errado é imperativo para que a história não seja repetida. Como reza o ditado, “errar é humano, repetir o erro é burrice”. Acrescento: ignorá-lo é estar fadado a repeti-lo.

O DIREITO A RESPOSTA

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 18 ago 2010.

Aqueles que fazem das palavras sua ferramenta de trabalho sabem a importância que vírgulas, reticências, expressões bem ou mal posicionadas e argumentos tendenciosos têm numa fala ou texto. Os professores dispõem desse poder cotidianamente, diante de seus alunos. São os heróis que muitos estudantes não encontram em casa, o pai que a garota sempre quis ou a mão firme que reforça os recados chatos da mãe. Os jornalistas e todos aqueles que têm um breve espaço para pronunciar-se em meios de comunicação também desfrutam de uma influência gigante perante seus leitores, telespectadores e ouvintes. Suas palavras, seus artigos indefinidos e posicionamentos críticos, sarcásticos, humorados e, infelizmente, parciais algumas vezes, alcançam num piscar de olhos mais pessoas que os professores. Em contrapartida, não têm a enorme felicidade de conhecer bem aqueles que lhes ouvem, fato este que sobra ao professor.

Lembro das aulas de jornalismo, nos idos anos de 2003, quando os professores ressaltavam que o jornalista tem que procurar ser, ao máximo, imparcial. Lógico que essa utópica neutralidade não abençoa ninguém e nenhum repórter, porque a própria visão de mundo faz-nos simpatizar com uma ideia ou com outra. Mas a versão de ambas as partes envolvidas sempre necessitou ser apresentada ao público. É isto o que vemos em empresas sérias, preocupadas com a verdade. Há um posicionamento do jornal, ele simpatiza com determinada causa, mas nem por isso deixará de dar espaço ao outro lado da história.

Mesmo com escândalos que pudemos ver em Foz do Iguaçu, onde vereadores utilizavam ilegalmente dinheiro público, passeando a nossa custa, com família, periquito e papagaio, os ladrões tiveram o direito de falar. Muitos se calaram, mas lhes foi auferida a oportunidade, assim como num julgamento, dentro das formas da lei, onde acusados e acusadores falam, cada um no seu tempo destinado.

No final do mês passado colei grau pela PUCRS em Letras, junto a tantos outros colegas de Letras, Matemática e História. Estavam lá, prestigiando-me, meus pais, minha irmã, amigos, amigas e alguns parentes que vieram de longe para comemorar comigo esta vitória. Havia cinco lugares à disposição de familiares ou às pessoas mais próximas que cada formando escolhesse. Como eram muitos concluintes, multiplicados por cinco, os lugares reservados iniciavam próximos aos novos professores até quase o fundo do salão. Meus pais ficaram lá no fundo. Os tios, primos e amigos sentaram junto ao público geral, mais ao longe ainda. Nem por isso achei prejudicado com os organizadores da solenidade. Cada um tinha o seu lugar e eu, meus colegas e professores, ocupávamos posição de destaque, como prevê o protocolo. Aliás, nem deveria ser diferente, éramos nós as autoridades da festa, o motivo de todos estarem lá. Nada mais justo que quem é mais relevante na solenidade ocupar o local de maior prestígio.

Dessa forma, pouco vejo de concreto no posicionamento, publicado em jornal local, de um advogado que se sentiu desprestigiado na formatura. Acompanhava-o o prefeito de Bagé. Assim como todos os demais familiares, puderam ocupar as cinco vagas disponíveis aos parentes daqueles que estavam pagando a festa, os formandos. Não foi reservado nenhum local específico para o prefeito e não era necessário. As autoridades da festividade eram os alunos, os professores. O espaço era particular, e não público. Ele não era mais importante que os pais dos demais formandos. Estava lá na condição de tio e possuía o mesmo grau de relevância que meu avô.

Assim como os demais jornais sérios que conheço, acredito que o semanário que publicou a opinião do ofendido também abrirá espaço para defesa, para a exposição da outra versão dos fatos. As palavras, como já disse, têm um poder enorme. Por isso, expor apenas uma das versões faz correr o risco de os leitores verem os fatos apenas sob uma ótica e uma nuvem espessa encobrir outros aspectos que envolvem o ocorrido. E não é uma verdade caolha que queremos.

Gosto muito do jornal, respeito e tenho grande admiração pelo trabalho que realiza, e é por este motivo que tenho a convicção de que será aberto o espaço para a réplica. Em tempos de eleição, acostumamo-nos com expressões e palavras do tipo “direito a resposta”, “réplica” e “tréplica”. E é assim que deverá ser conduzida esta questão.

O GOLPE DO DISQUE-SEQUESTRO

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 11 ago 2010.

Estamos com o seu filho. Não desligue o telefone, senão apagamos ele. Se avisar a polícia, ele morre. Você quer o seu filho vivo? Então deverá fazer exatamente o que estou dizendo. Deposite cinco mil reais nesta conta, anota aí.... E nada de avisar a polícia, certo?
Foi mais ou menos esse o diálogo inicial de um conhecido com o suposto sequestrador do seu filho, na semana passada. Um ótimo presente antecipado de Dia dos Pais. Contudo, não havia sequestrador, muito menos sequestrado. É um golpe ao qual muitas pessoas já sucumbiram. Não é novidade aos bandidos essa maneira de ganhar dinheiro “fácil”. Infelizmente, a mente humana tem o seu brilhantismo também à disposição do mal.
A história acima ocorreu ao amanhecer da quinta passada, com dois idosos. Eles tomavam seu chimarrão costumeiro quando receberam a ligação pelo celular. Ao ouvir que o filho fora sequestrado, o pai mal conseguiu raciocinar e continuou acreditando na mentira maldosa. Era cedo e o banco não havia aberto ainda. Saiu o casal, desesperado pela rua, gritando que o filho iria morrer, a caminho do banco. “É caso de vida ou morte”, respondeu a mãe ao segurança do banco. Este chamou o gerente, que os mandou entrar. Enquanto a polícia dirigia-se ao banco, acionada pela gerência, o pai continuava ao telefone, sendo ameaçado pelos sequestradores. O desespero era tanto que a mãe não recordava o número do filho, até lembrar-se que estava anotado na sua agenda. A ligação foi realizada e o filho, que estava são e salvo em casa, tranquilizou todos. Ficou evidente que se tratava de um falso sequestro pelo telefone. Realmente, não passava de uma ligação feita por bandidos que tentavam subtrair dinheiro de duas pessoas que não conheciam, mas sabiam dos efeitos devastadores das suas palavras.
“Eu escutei a voz do meu filho, era ele mesmo”. O desespero em que a pessoa entra após ouvir que alguma pessoa muito próxima foi sequestrada acaba por diminuir o discernimento entre realidade e ficção. É o que afirmou o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, na edição de 12 de fevereiro de 2007, da Revista Veja: “O estado de desorganização mental que se segue a uma notícia de acidente ou sequestro do filho ou cônjuge faz com que a vítima entre em um estado de quase-hipnose”. A reportagem antiga faz perceber que o golpe é antigo. Ainda assim, muita gente continua sendo vítima de pilantragens como essa.
Outra modalidade semelhante ao “disque-sequestro” é a “ligação-premiada”, onde um suposto funcionário de uma empresa conhecida informa que a pessoa ganhou boa quantia em dinheiro e para que seja depositado na sua conta, deve comprar cartões telefônicos e informar o número do código, ou então depositar 500 reais para ganhar os dois mil da premiação.
Ligações como essas podem ocorrer tanto em São Paulo como em Uruguaiana. Ainda mais com a facilidade que existe, atualmente, em acessar as informações de qualquer pessoa. As lojas detêm um cadastro com incontáveis informações pessoais, que vão de nome completo a filiação, CPF e endereço.
As redes de relacionamento na internet dispõem de álbuns de foto, onde o internauta divulga imagens da sua casa, dos pais, filhos, irmãos, amigos de maior convivência, local de trabalho, isso se não escancarar o endereço e o número do celular. Basta um acesso rápido aos álbuns, nem sempre disponíveis apenas a amigos, mas a amigos dos amigos ou àqueles que são adicionados sem realmente sabermos quem são e, pronto, tem-se uma ficha completa. Também são encontradas informações que você quer que apareçam e também o que não quer se digitar o seu nome no site do Google: concursos realizados, aprovações, promoções em empresa pública ou caso seja citado num site; tudo isto estará/está disponível na web.
É muita informação solta, livre e fácil de ser encontrada e fica difícil manter em segredo, na internet, a própria atividade profissional, rede de amigos e demais dados pessoais. Ajuda se controlar o impulso de postar na internet tudo o que ocorre consigo. A foto está tão bonita, dá tanta vontade de deixá-la pública para que os meus amigos vejam. E para que os inimigos invejem. É um enorme campo para contraventores aproveitarem-se e usarem contra nós. Não se desesperar ao ouvir o anúncio do sequestro, quando ele pode ser verdadeiro, é uma tarefa difícil. Mas é possível bloquear imagens, selecioná-las melhor para que nossa vida fique menos exposta e tentar permanecer sempre atento a qualquer chamada fora do usual.

O HERÓI, CONSELHEIRO E PAI

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 04 ago 2010.

“Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?”
Nas palavras de Renato Russo inicio esta crônica que reflete sobre os mais diversos pais que comemoram o seu dia no próximo domingo, dia 8 de agosto. Sejam eles pais bons ou nem tanto assim, conselheiros, negligentes, zelosos ou superprotetores. Esses pais que já foram crianças e por vezes têm atitudes de crianças, são as mesmas pessoas que seremos no futuro, salvo se não tivermos filhos e nunca assumirmos esse papel com outros entes queridos.
Vi neste final de semana que passou, um jovem subindo para o ônibus, rumo a Santa Maria, e seus pais parados, olhando o coletivo ir, levar seu filho, o tesouro das suas vidas e sumir na esquina. A mãe usava óculos escuros, mas algumas lágrimas eram visíveis escorrendo pelas beiradas dos óculos, acusando o seu pranto interior. Abraçado a ela o pai postava-se sério, sem chorar, olhando com profundidade para o ônibus que desaparecia. Claro que se derramava em lágrimas por dentro, mas precisava secar o choro da esposa, acolhê-la, dizer-lhe que no próximo final de semana, dali a um mês ou nas férias seguintes ele estaria de novo, chegando naquele mesmo ônibus, inteiro, são e salvo. Talvez sem as lágrimas do embarque e possivelmente com um largo sorriso no rosto.
Não que os pais sejam insensíveis, mas é típico do homem segurar o choro, aparentar estar menos sensibilizado. Interiormente a pessoa é um chorão, dengoso, mas a mãe dos seus filhos poucas vezes o verá em prantos por causa do filho que mora longe. Se chorar ela chora também. Então é melhor segurar. Ao menos quando tem alguém por perto.
Infelizmente, algumas vezes esses jovens não reaparecem nos ônibus. Nesses casos os pais recebem a notícia que o filho faleceu em outra cidade. Acidente de carro, desastre natural, suicídio ou outros motivos. É o pior reencontro com o filho que um pai pode ter. Meu primo faleceu há exatos sete anos atrás quando retornava de uma festa ao final da madrugada. Colidiu o carro num poste e não suportou os ferimentos. Chegaria em casa e viajaria com o pai.
Não menos trágico foi viajar até a cidade natal de um jovem que trabalhava comigo e se suicidara, em 2006, e entregar os pertences dele aos seus pais. A mãe olhava consternada para as roupas e demais materiais dele. O pai parecia mais sereno. Talvez estivesse assim porque sua esposa precisava contar com alguém. E seria com ele.
Mas também de momentos felizes os pais recheiam a vida dos filhos. São os heróis até a adolescência, aconselham na escolha da profissão, na decisão de largar o emprego, apoiam o orçamento que furou nesse mês ou simplesmente têm um abraço gostoso e seguro quando tudo em volta amedronta.
Muitos desses pais comemoram pela segunda semana consecutiva o seu dia. No domingo passado celebrou-se o Dia do Motorista, profissão predominantemente masculina. São eles que mereceram um dia especial para celebrar sua nobre profissão perigosa, desgastante e importante.
Estes pais merecem ser louvados. Vivos ou mortos, se contribuíram para o crescimento de seus filhos, fazem jus ao Dia. Já pais como o conhecido em cadeia nacional Alexandre Nardoni, condenado pela morte da filha Isabella, não deveriam receber este honroso nome. Ganhou sua fama junto à madrasta Anna Jatobá após Isabella cair do apartamento onde morava e ser o principal suspeito, inicialmente, pela morte da pequena. Após considerável tempo que só ricos e políticos conseguem protelar, foi julgado e considerado culpado. Ele é pai, sim, biológico, mas só mereceria ser chamado de pai quem levasse amor ao descendente, educasse e protegesse. Porque como ele há muitos outros homens que só devem ser considerados pais biológicos. Não assumem a paternidade, batem nos filhos, vendem para o tráfico de inocentes, abusam sexualmente e fazem barbáries com aqueles que deveriam receber proteção.
A estes últimos, o domingo é um dia como os outros. A todos os demais, é uma data para comemorar, parabenizar os pais que estão vivos e tentar aproveitar ao máximo o tempo com eles. E se não estão mais entre nós, vale agradecer a Deus (ou da maneira que o credo orientar) por um dia terem passado por nossas vidas.

O ESPETÁCULO DA SOLIDARIEDADE

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 28 julho 2010. 

Há quem ajude pessoas e não conte isso a ninguém. Mas existem aquelas pessoas ou entidades que fazem da doação um grande espetáculo para promover-se. Pura jogada de marketing. Essa supervalorização de si acaba diminuindo a importância da doação e põe em dúvida a real intenção de ajudar o próximo. É o que vimos na reportagem do Jornal do Almoço do último dia 20.
A jornalista Cristina Ranzolin valeu-se excessivamente dos pronomes “eu” e “minha”, parecendo propaganda eleitoral. Demonstrava em cadeia estadual que ela e a RBS são pessoa e instituição solidários. Retratando a Ilha da Pintada, uma das tantas ilhas de Porto Alegre, retornou ao local depois da reportagem que o jornal exibira na semana anterior, mostrando as condições precárias de vida dos moradores de lá.
Acobertado por um motivo social e que sensibiliza as pessoas, voltou à Ilha da Pintada dizendo que veria se a reportagem da semana anterior surtira o efeito esperado de levar a população a doar alimentos e roupas àqueles miseráveis. “Cenas como estas que impressionam não só vocês que estão em casa, mas também nós jornalistas”. A reportagem começou mostrando ela acondicionando roupas e comidas (da população e dela, como bem destacou) numa caminhonete e o deslocamento da equipe de reportagem até a ilha. Pouco antes de chegar, ela disse “Logo que passei a primeira ponte, o cenário mudou: difícil imaginar que famílias inteiras morem nessas casas, se é que podem ser chamadas assim”. E lá está o uso do verbo em primeira pessoa: “logo que passei a primeira ponte”. Difícil imaginar, isso sim, que sendo jornalista há anos, ela ainda não tenha se deparado com a pobreza. Ou será que era drama para mostrar-se sensibilizada?
Retratou nada além da realidade que conhecemos em Porto Alegre, Uruguaiana e em qualquer cidade brasileira: barracos ancorados por madeiras velhas e crianças dormindo apertadas e passando fome. A visão das casas sob a ótica dela e frases como “cenas que não me saíram da cabeça” e “eu resolvi ir até lá para ver se alguma coisa mudou depois que a história deles foi mostrada aqui no JA (Jornal do Almoço) e também para levar algumas doações minhas” deixaram claro que a intenção não era mostrar como os moradores da ilha viviam, mas para que todos pudessem ver o tamanho da solidariedade da Cristina Ranzolin.
As condições subumanas daqueles moradores realmente entristecem, mas não são diferentes dos moradores de outra região periférica de qualquer cidade ou de Uruguaiana. Chocou, sim, ver uma criança nua, naquele frio (chovia e ventava) e a mãe, ao ser interpelada pela repórter o motivo de seu filho estar sem roupa e os demais descalços, responder que os calçados estavam para chegar e “ele (o menino) fica assim mesmo. Ele é que nem índio. É só tentar colocar a roupa nele que ele tira”. É difícil aceitar que os pais não consigam vestir uma criança de cinco anos. Quiçá dos filhos mais velhos. Parecendo candidata eleitoral, Cristina fechou aquela cena dizendo “O garotinho que não queria saber de colocar roupa, acabou aceitando que eu o vestisse com uma roupinha que eu levei da minha filha”. Precisava dizer que era da filha dela?
A preocupação residiu em demonstrar a solidariedade da emissora. Autopromoção velada e barata. O ápice da autopropaganda ocorreu no final da reportagem “Só mesmo indo até lá, como eu fui, para ver como a vida é dura para eles”. Realmente, no eixo estúdio-shopping-casa não existem casebres.
Caso semelhante presenciei numa formatura de conclusão da 8ª Série de uma turma de Educação de Jovens e Adultos, tempo atrás. A escola era particular, mas seus alunos não pagavam mensalidade. Eram pessoas carentes e recebiam, inclusive, transporte gratuito: um ônibus buscava-os em pontos-chave da cidade e levava-os para casa ao final das aulas. Até então, uma iniciativa louvável. Mas no discurso, o então diretor falou-lhes “tenham orgulho em estudar nesta instituição, pela qualidade do ensino”. Nada de aludir ao fato de serem adultos que retomaram os estudos depois de anos e concluíam o Ensino Fundamental conciliando a escola ao trabalho dentro e fora de casa. Não os encarou como lutadores, perseverantes, mas como sortudos que tiveram a felicidade de estudarem numa escola de primeira linhagem. Se o objetivo era destacá-los, não teve sucesso. O que ocorreu, em verdade, foi uma supervalorização da escola. Os alunos não eram mais o foco e sim, a escola. Da mesma maneira, a reportagem do Jornal do Almoço não objetivou mostrar que os moradores da Ilha da Pintada necessitam de um programa do Governo que preste assistência e melhore as suas condições de vida. Intencionou-se, sobremaneira, mostrar que a RBS é solidária e que a Cristina Ranzolin é uma excelente cidadã, prestativa e preocupada com o bem-estar social. A ajuda ao próximo fica em segundo lugar. Em primeiro está o quão bonzinho somos.

TAPA DE LUVA DE PELICA

Publicado no O Jornal de Uruguaiana, em 21 julho 2010

Não sei quando surgiu a expressão “tapa de luva”, mas foi muito bem bolada. Se empregada oportunamente, consegue exprimir com exatidão o que outras palavras não conseguiriam com tanta eficiência. Pois foi esse “tapa suave” ou “com classe” que presenciei pouco tempo atrás. E constantemente flagramos tapas desse naipe ocorrendo. Talvez não notemos, assim como meu avô não percebeu recebê-lo.

Quando mais novo e responsável pela educação de minha mãe e seus três irmãos, ele jamais os apoiou em quaisquer atividades que seja. A família era uma entidade que provavelmente pesava nas suas costas, mas certamente era quem lhe dava um pouco de conforto e sustento. Era alcoólatra e suas bebedeiras refletiam na esposa e nos quatro filhos: distanciamento, perda de qualquer demonstração de carinho e respeito, medo. Total desestrutura familiar. Assim como ele, milhares de famílias sofrem esse drama, hoje ainda.

Na suas pobres ignorâncias de trabalhadores braçais, ele e minha avó nunca puseram um livro nas mãos de seus filhos. Pelo contrário. Recomendavam que não lessem, pois era bobagem, tempo perdido. Infelizmente, essa realidade também não sumiu com o passar dos anos. Minha mãe lia os poucos livros que tinha acesso escondida, entricheirada no seu quarto. Sumia com os volumes literários debaixo da cama assim que ouvia algum rumor. Chegava a ensaiar como fazê-lo, tal era o medo de represálias. Ironicamente, hoje ela é professora de Língua Portuguesa e a principal responsável pelo meu gosto pelo mundo da escrita. Mas esse não é o tapa de luva. Ele vem logo abaixo, também devido a uma ironia do destino.

As bebedeiras de meu avô diminuíram e as monossilábicas palavras de outrora foram substituídas por longos diálogos. Atualmente ele não perde um encontro de família, visita todos que pode e conversa, parecendo uma caturrita. Numa dessas visitas, passou lá em casa e por coincidência, no dia seguinte chegaram os exemplares da antologia que eu e minha mãe participamos, cada um com um conto.

Ele pousara lá e os exemplares chegaram durante a tarde. Antes que eu chegasse em casa para vê-los, meu avô já os havia pego, guardado consigo e retornado a São Borja, cidade que reside. Levara um jornal literário com contos e crônicas e um livro com um conto, todos de sua filha. A mesma que lia escondida, apreensiva caso ele visse. Mas dessa vez ele não brigara com ela. Pelo contrário, abrira um largo sorriso ao saber da existência do jornal e do livro, orgulhoso do sangue do seu sangue.

Levara um “tapa de luva”, de luva de pelica e, provavelmente, nem tenha notado. Recebera uma lição de vida aos 71 anos e talvez não tenha consciência disso. Mas certamente saiu feliz pelo sucesso da filha, independente de perceber que ela superou a sua reprimenda, prosseguiu lendo e começou a escrever.

A dificuldade encontrada para ler não é um caso isolado. Basta olharmos um pouco para nosso umbigo. Uruguaiana sofre todos os anos para conseguir ter uma feira do livro. Muita gente fica sem saber. Quem ouve falar, não vai. Meia dúzia de leitores prestigiam-na e ela permanece às moscas. Claro que o preço de um livro custa muito caro para uma família que mal consegue alimentar-se. E na disputa entre refeição e leitura, o papel perde com facilidade. Mas, também, em casa as crianças são pouco estimuladas a ler.

Quando o acesso ao mundo literário é possível, que é o caso da escola, o aluno tem o direito indissociável de entrar em contato com as histórias infantis. Contudo, ainda que aprenda a ler e escrever no colégio, é muito importante ouvir histórias das bocas dos seus pais. Para que não surjam histórias como essa. Até porque tapas de pelica não são tão comuns no dia-a-dia.

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