terça-feira, 26 de julho de 2011

EGOCENTRISMOS E MICROFONES

Publicado no Jornal da Cidade Online de 24 de julho de 2011.

ESTIVE NUM SEMINÁRIO PEDAGÓGICO HÁ CERTO TEMPO. UMA JORNADA DE CINCO NOITES de palestras, introduzidas por apresentações artísticas. Muito bom, seja no conteúdo, seja no quórum. Creio que tenha ultrapassado 200 participantes. Uma vitória em face aos baixos índices de presenças nos seminários e debates educacionais que toda a hora surgem, acabam e pouca gente prestigia.

Uma das noites proveu-me de material para esta crônica: a propaganda velada e inoportuna, incômoda. A palestrante foi à frente, explicou seu primeiro slide e começou... a minha escola é isso, é aquilo, trabalha assim e por aí foi. Até consultei o cronograma para ver se previa a apresentação das atividades realizadas pela escola. Obviamente, não. A palestrante complementou, chamou toda a coordenação, os funcionários e professores.

Pensei que veria o pedido de palmas a eles. E, realmente, ele veio. A minha mente podia ter sido salva sem isso. Não é a primeira vez que um palestrante ou o “dono” do microfone tangencia o assunto pelo qual lá está.

Numa formatura de conclusão de curso policial, algumas semanas antes, o comandante dos formandos apossou-se do dito cujo microfone e começou a ladainha: obrigado tal empresa, a outra loja, a determinado empresário, deputado Fulano de Tal, obrigado!, meu chefe, à esposa.

Temos que “vender o nosso peixe”, mostrar-nos competentes. O jornal precisa seduzir o leitor, as notícias têm que prender a atenção. As crônicas necessitam emocionar, fazer refletir, concordar ou discordar, porque o pão diário não cai do céu. Mas, para tudo, tem hora. Num seminário, os presentes buscam algo que os acrescente, que refute ou ratifique seus pensamentos. O contrário a isso, decepciona.

O vendedor não pode ser chato. Chato não convence cliente. E dá efeito inverso, exatamente por este motivo a compra acaba não ocorrendo. Gera repulsa pelo vendedor e pelo produto.

Para algumas situações, cai bem um tanto de feeling ao palestrante ou vendedor. Menos agocentrismo e mais foco no que é importante e nos motivos que o levou a ser o centro das atenções nunca é fora de moda.

domingo, 10 de julho de 2011

O QUE TE MOTIVA?

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 10 jul 2011.
Publicado no Jornal Tribuna, de Uruguaiana, com o título "Reprovado, motivado... aprovado", em 09 jul 11.

O que leva uma pessoa a acordar de madrugada, pegar dois ônibus, chegar às sete horas no trabalho, enfrentar um dia estressante, engolir 17 sapos do chefe, pegar mais dois ônibus e chegar tarde em casa? Uma rotina estafante, que ninguém deseja. Mas o trabalhador executa-a e ainda fica feliz porque rala, mas está empregado.

As obrigações diárias, a luta por uma vida melhor e o dinheiro para pagar os remédios da filha doente são fatores que levam uma pessoa a arrancar do corpo aquele “a mais” quando ele já clama por descanso.

Esses desejos que funcionam como mola propulsora, direcionando-nos pelo caminho A ou B, logicamente, são diferentes para cada pessoa. Sinto-me feliz ao escrever uma crônica. Não preciso receber elogio, mas se vier, cai bem. Em contrapartida, tenho um amigo que fica com os olhos brilhando quando fala do seu “Celtinha”. Há gente que se não sai no final de semana, fica angustiado. Para muitos, futebol no domingo à tarde é uma terapia inadiável. Também pode ser a compra da bolsa namorada há semanas.

Buscamos insaciavelmente a felicidade, o elixir da longevidade, o nirvana que pusemos em nossas cabeças que alcançaríamos quando crescêssemos. Deixamos a infância, a adolescência e a vida adulta, atingimos a maturidade e falecemos atrás dessa fórmula mágica. De acordo com a reportagem de capa “O que te motiva?”, da Revista Galileu deste último junho, essa busca, por si só, é um fator motivante.

É incrível que, ao mesmo tempo que atingimos os nossos objetivos, aquela vontade que se apossava de nós some rapidamente. De acordo com a reportagem, a insatisfação permanente é um recurso que a natureza inseriu em nós e que manteve a evolução das espécies. Certamente, pois se nossos ancestrais se contentassem apenas com o que caçavam no dia, não fariam reservas de alimentos e pereceriam nas épocas em que a comida era mais escassa.

As perspectivas mudam ao longo da vida e o que não era interessante, torna-se algo de muito valor para alguém. Não há motivação maior que a própria sobrevivência. Se for para manter-se vivendo decentemente, não titubeamos em fazer uma terceira jornada de trabalho. Que o digam os professores, profissionais que costumeiramente complementam a renda familiar com esse terceiro tempo do jogo. 

Longe dessas preocupações financeiras e na contramão da busca pelo sucesso, há algumas semanas presenciamos a decadente despedida dos gramados, de Ronaldo Nazário. Brilhante nos tempos áureos, Ronaldo Fenômeno recebera a alcunha que, à época, justificava tamanha exaltação. Mas o dinheiro transbordando dos bolsos e a exposição extenuante da sua imagem banalizaram os próprios objetivos. Ele e muitos jogadores que emergiram da pobreza lutaram arduamente até se firmarem no cenário esportivo. Melhorar de vida, poder tirar a família da situação de miserabilidade foram razões muito presentes na ascensão. Motivos louváveis.

Mas depois que o dinheiro ficou fácil demais, querer manter-se como “Fenômeno” e, quem sabe, equiparar-se a Pelé e Maradona, deixaram de ser desejos contundentes. Ronaldo aposentou as chuteiras movimentando milhões, mobilizando multidões e muito acima do peso necessário para desempenhar bem a sua função.

Nossos rumos seguem caminhos que pouco controlamos. E inseridos em um novo contexto, objetivos, intenções e motivações demonstram-se totalmente maleáveis. Muitos irão criticar novas posturas, alguns apoiarão, mas apenas nós mesmos é que saberemos se andamos na estrada certa ou pegamos a rua errada. Conquanto haja algo que nos motive, tudo fica mais possível de alcançar.

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