segunda-feira, 11 de outubro de 2010

AMOR ESTRANHO AMOR

 Publicado no Jornal Letras Santiaguenses Set/Out 2009
e no jornal Tribuna em 1º de agosto de 2009

O passado das pessoas às vezes pode ser bem sinistro. Constatei isso conversando com uma amiga. Ela disse que ficara decepcionada quando descobriu a história oculta da Xuxa. Ao menos oculta até então para ela. Do que você está falando? Que ela posou na Playboy? Não acho a coisa mais correta moralmente para a Rainha dos Baixinhos, mas não vejo problema nisso. Não, sobre o filme que ela fez anos atrás. Não estou sabendo de filme nenhum. Ela fez um filme com um garoto de 12 anos. Como não acreditasse recorri ao Aurélio digital, o amigo de todos, Google.
E procurando no Google descobri um vídeo, lançado em 1982, onde a Xuxa representa o papel de uma prostituta de um bordel e seduz um garoto de 12 anos. O filme? Amor estranho amor. É só procurar nos sites de busca que aparecem incontáveis páginas. Pois então a Rainha dos Baixinhos participou de um filme onde um garoto, menor de idade, realiza cenas de sexo. Ao que me consta, isso é, sempre foi e sempre será crime. Junto com a loira, que à época não era famosa, também era menor de idade e buscava a fama, encontramos um elenco de peso: Vera Fischer, Tarcísio Meira e Mauro Mendonça.
Muita coisa que se encontra na internet é montagem ou edição de vídeos que fazem parecer real o que não é. O filme foi proibido e tirado de circulação no Brasil, mas lançado nos Estados Unidos com o título “Love strange love”. Ainda cauteloso, procurei algum trecho dele, o que foi facilmente encontrado, até mesmo na íntegra, com cenas de nudez completa e beijos na boca entre as adultas do filme e o garoto. Maria da Graça Meneghel também contracena com o pequeno. Assim como minha amiga, fiquei muito decepcionado com o que vi, pois descobri uma pessoa sem maquiagem, músicas bonitas, nem palavras cândidas.
Não que eu tenha a audácia de acreditar que esse texto chegará às mãos de pessoas influentes e que se incomodem a ponto de quererem processar-me, mas sempre é bom precaver-se. Então, não faço nenhum posicionamento, apenas relato os fatos que se apresentam na internet, disponíveis a qualquer pessoa que se interesse em saber um pouco mais sobre um filme da época da pornochanchada e que foi proibido no Brasil. Não sei por que o foi!
Pergunto-me como um fato tão relevante conseguiu ser abafado com tanta eficiência. E também como ninguém foi preso. E inclusive o que pensavam os pais daquele inocente que por ser menor de idade, não respondia pelos seus atos. Por consequência, se o rapaz não poderia responder pelo “crime” (ou devo utilizar sem aspas?), os pais deveriam.
Procurei no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) um artigo que me dissesse “Giovani, você está exagerando os fatos” ou “realmente, você tem razão”. Encontrei alguma coisa. O Artigo 240 fala o seguinte “produzir ou dirigir representação teatral, televisiva ou película cinematográfica, utilizando-se de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica. Pena – reclusão de um a quatro anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, nas condições referidas neste artigo, contracena com criança ou adolescente”. Lamento que o ECA tenha sido criado apenas em 13 de julho de 1990, através da lei nº 8069 para, dentre outros objetivos, impedir a repetição de aberrações como esta relatada.
Além d’Os Trapalhões -Didi, Dedé e dos saudosos Mussum e Zacarias-, Xuxa participou da formação da minha infância. Eram manhãs inteiras assistindo a seus programas. Foi uma tristeza muito grande ouvir esta história e confirmá-la.
Pergunto-me, ainda, o que pensou o inocente durante as gravações. Porque se ele representava um rapaz assustado no filme, o fazia de maneira tão perfeita que me faz crer que assim demonstrou porque realmente devia estar. Se essa história morreu nos ecos vazios do passado, no esquecimento que só o tempo e o silêncio podem trazer, rezo para que não se repita. Seja com o amparo da lei, seja com o amparo da moralidade, artigo de baixa incidência em algumas pessoas.

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