segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A UTILIZAÇÃO DE VARIANTES NÃO-PADRÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA

Meu trabalho de Conclusão de Curso do curso de Letras Português/ Espanhol e Respectivas Literaturas.

A UTILIZAÇÃO DE VARIANTES NÃO-PADRÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA COMO OBJETO DE DISCRIMINAÇÃO EM JOVENS DO ALTO URUGUAI NA CIDADE DE URUGUAIANA1


Giovani Roehrs Gelati2
Profª Ma. Diely Valim dos Santos Peres3


Resumo:

O presente trabalho, dentro da área sociolinguística, é uma investigação sobre o encontro das variedades populares da língua portuguesa faladas no Alto Uruguai e em Uruguaiana, gerado pelo convívio de militares dessas duas regiões em Uruguaiana. Contrariando a lógica, os jovens oriundos do Alto Uruguai não sofrem preconceito linguístico por parte dos uruguaianenses. Os migrantes são aceitos aos poucos, à medida que modificam o uso das suas variantes. Incorporam um novo vernáculo, o militar. Por consequência, as duas culturas aproximam-se, minimizando as diferenças linguísticas.

Palavras-chave: sociolinguística – discriminação – variação linguística



Resumen:

El presente trabajo, insertado en la area sociolingüística, es una investigación acerca del encuentro de las variedades populares de la lengua portuguesa habladas en Alto Uruguay e Uruguayana, motivado por el convivio de militares de esas dos regiones en Uruguayana. Distintamente de la lógica, los jóvenes naturales del Alto Uruguay no sufren preconcepto lingüístico por los uruguayanenses. Los migrantes son integrados a los pocos, en la medida que cambian el uso de suyas variantes. Pasan a utilizar un nuevo vernáculo, el militar. En consecuencia, las dos culturas acercanse, minimizando las diferencias linguísticas.
Palabras clave: sociolingüística – discriminación – variación lingüística

INTRODUÇÃO

O Rio Grande do Sul é um estado de colonização heterogênea, sendo possível a verificação empírica dessa afirmação com facilidade, ao transitar entre as várias regiões gaúchas. Com destaque a colonização ocorrida na região do Alto Uruguai gaúcho, que compreende Frederico Westphalen e a ocorrida na Fronteira Oeste, que engloba a cidade de Uruguaiana. Foram distintos os povos que inicialmente povoaram essas cidades e as vizinhas. E quando há uma migração de jovens da primeira para a segunda cidade, uma enormidade de diferenças de ordem cultural e social faz-se presente. Dentre elas, os dialetos locais destas comunidades de fala.
Em meio a esse contexto sócio-cultural que nos deparamos em solo gaúcho, encontramos jovens de 18 e 19 anos mudando-se da região do Alto Uruguai para Uruguaiana para cumprir o serviço militar obrigatório (alguns a contragosto e outros voluntariamente). A grande maioria permanece apenas cerca de 10 meses nesta cidade e retorna para a de origem. Mas há uma quantia considerável que permanece residindo em Uruguaiana por ter se estabelecido profissionalmente na cidade, quase sempre devido ao serviço militar.
Esses mesmos jovens que incorporam às fileiras do Exército com 18 e 19 anos e permanecem em Uruguaiana até os 25 ou 26 anos, idade que possuem quando finda o tempo máximo do serviço militar são os objetos desta pesquisa, que vem a elucidar as complicações que emanam das diferenças intrínsecas nas expressões orais entre as regiões estudadas. Foram verificadas as implicações que o embate de dois dialetos distintos resulta na conquista dos objetivos almejados por cada jovem, de que maneira os detentores de dialeto diferente dos nativos da região da Fronteira Oeste superam as dificuldades de comunicação e como enfrentam um possível preconceito linguístico devido ao uso de sua língua vernácula.

1. ORIGEM DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO

1.1 Evolução histórica dos estudos da língua

Dentro de todo o invólucro que a sociolinguística está envolvida, destaca-se o problema de entender a diferença que há em estudar a gramática normativa e a língua falada, intrínseca do brasileiro, própria do habitante da nossa República.
Nisso, vemos alguns pontos que devem ser ressaltados. Inicialmente, a visão que há de igualdade entre a língua falada e a normatizada em Portugal e no Brasil. Bagno posicionou-se de maneira interessante sobre o assunto:
Ensinar português […] é transmitir – consciente ou inconscientemente – uma ideologia linguística que prega a incompetência da grande maioria dos brasileiros em falar a “língua de Camões”, que acusa todos eles de contribuírem desastrosamente para a “ruína do idioma”. Uma ideologia que menospreza as identidades individuais (afinal, falar errado é o mesmo que ser errado) e esmaga a auto-estima4 dos cidadãos. Uma ideologia que provoca na gente uma profunda auto-aversão4, um sentimento de desgosto por nosso próprio modo de falar, de pensar e, mais uma vez, de ser.
(2004, p. 9-10)

Também, o estudo da língua associado, exclusivamente, à gramática normativa, é um problema devido a fatores históricos. Os estudos da linguagem estiveram, desde o início, por volta do século III a. C., voltados aos textos literários, os hermeticamente corretos na flexão dos tempos verbais, pausas na fala e concordâncias empregadas, como nos mostra Bagno (2004). Havia a ideia de pureza das palavras, das estruturas gramaticais. Ledo engano: o português de Portugal sempre passou por transformações desde a sua origem, o Latim Vulgar.
Bagno (2004) apud John Lyons (1968:9) esclarece que se configura como uma distorção na verificação da realidade pensar numa só unidade o falar e o escrever e tratarmos as evoluções que a língua sofre não como mudanças, mas como “corrupção” ou mesmo “decadência”.
A sociolinguísta é uma ciência nova. O campo de estudo que hoje compete a ela, antigamente era ocupado pela Gramática Tradicional. Esta surgiu a partir do estudo das obras de Homero e tinha o objetivo de servir de modelo para quem quisesse escrever outras obras em grego. Com essa dedicação à língua literária e, portanto, à escrita, a língua falada foi deixada de lado. Contudo, há muito mais pessoas que falam a língua do que quem decodifica para o papel. A Gramática Tradicional preocupou-se apenas no aspecto escrito, todavia porque à época do início dos estudos o poder perpassava a escrita, pois era de domínio de uma resumida elite, detentora do poder econômico e político.
Não há problema, até então, de haver uma ciência descritiva da linguagem literária, da linguagem escrita, propriamente dita. O grande problema incide na questão que as regras que essa mesma gramática tradicional imprimia perante os textos escritos, passaram a valer para a fala, atributo totalmente intrínseco ao falante. Bagno exemplifica magistralmente isso, ao falar que a Gramática Tradicional “começou a ser usada como um código de leis, como uma régua para medir todo e qualquer uso oral ou escrito de uma língua.” (2004, p. 17)
O início de uma ciência que melhor interpretasse as manifestações linguísticas deu-se em 1916, com a publicação do “Curso de linguística geral”, de Ferdinand Saussure (1857-1913). Da evolução dos estudos que se seguiram a Saussure, surgiu a Psicolinguística, a Análise do Discurso, a Análise da Conversação, Linguística Textual, Semântica Argumentativa, Pragmática e a Sociolinguística.

1.2 Sobre o pensar que falamos errado

Uma das grandes bandeiras da sociolinguística sempre foi a mudança de pensamento quanto ao falar certo e o falar errado. Marcos Bagno coloca com propriedade esse dilema, ainda longe de ser resolvido:
A principal (e pior) consequência do elitismo e do caráter não-científico da Gramática Tradicional foi o surgimento da noção folclórica de “erro”. […] O grande problema com essa noção ultrapassada é que, como os estudos linguísticos modernos têm revelado, simplesmente não existe erro em língua. Existem, sim, formas de uso da língua diferentes daquelas que são impostas pela tradição gramatical. No entanto, essas formas diferentes, quando analisadas com critério, revelam-se perfeitamente lógicas e coerentes.
Quando se trata de língua, só se pode qualificar de erro aquilo que comprometa a comunicação entre os interlocutores. Se uma pessoa disser os menino tudo veio, ninguém, por mais preconceituoso e tradicionalista que seja, vai poder alegar que “não entendeu” o que aquela pessoa quis dizer.
(2004, p. 25-26)

As variedades populares da língua são encaradas como línguas secundárias, de menor valor, onde apenas a variação normativa é o português bem falado. Tudo que se distancia da norma padrão, catedrática, é visto como incorreto. Isso ocorre devido ao prestígio, único e exclusivo, ao português culto, da literatura, mas que é tão distante da prática da fala quanto é considerado certo. O uso dessa variante prestigiada é comum nos cidadãos eruditos, apreciadores das regras gramaticais. Vale salientar que, ainda assim, durante o discurso da fala, ninguém consegue manter-se adequadamente dentro das normas literatas, sem realizar qualquer “deslize”.
Uma das características da fala é a espontaneidade, a velocidade com que o pensamento é processado e expresso através de palavras. Fator este que ocasiona, ainda que haja uma tentativa enorme de falar de acordo com as normas gramaticais, o uso inadequado de concordâncias ou de outros aspectos gramaticais da língua.
Se as pessoas que dominam o uso da norma padrão encontram dificuldades para manterem-se alinhadas às incontáveis regras sem fugir dos limítrofes paredões engessados pela gramática; aquelas que não tiveram acesso à língua de prestígio durante o processo educacional ou o foi muito pouco, encontrarão ainda mais empecilhos nesta tentativa.
Um questionamento que cabe é: por que buscar a norma padrão para expressar-se? Ora, dado o prestígio que a mesma detém, a grande maioria das pessoas interpreta que, se dominar a norma culta, o “português correto”, demonstrará erudição e competência linguística, o que ultrapassa o campo linguístico e atinge o status social. Não é só uma questão de adequação do discurso e sim, de uma luta constante pelo status. Bortoni-Ricardo exemplifica essa busca:
[…] as lideranças políticas das nossas classes trabalhadoras se esmeram em falar um português escorreito em suas aparições públicas, no que nem sempre têm total sucesso em virtude de sua sociabilização ter ocorrido no âmbito das variedades populares. (2006, p. 14)

Não diferente, encontramos esse preconceito linguístico arraigado nos bancos escolares. É um sistema o qual reproduz o conhecimento dos adultos sem induzir ao questionamento. Não passa de puro reflexo do sistema educacional, que só tem olhos para o que é atinente à cultura dominante:
No Brasil, as diferenças linguísticas socialmente condicionadas não são seriamente levadas em conta. A escola é norteada para ensinar a língua da cultura dominante; tudo que se afasta desse código é defeituoso e deve ser eliminado. O ensino sistemático da língua é de fato uma atividade impositiva. (BORTONI-RICARDO, 2006, p. 14)

Bortoni-Ricardo (2006) mostra-nos que pesquisas na área do planejamento linguístico demonstram que o grau de padronização da língua de uma nação tem direta relação com o nível de modernização que se encontra. Antes que possa parecer uma prova irrefutável contra os estudos linguísticos e uma ode à supremacia opressora da variedade padrão, essa informação deve ser encarada como um marco que deve ser buscado pelas populações: dominar o código-padrão sem restringir a pequenos grupos, mas respeitar as diferenças existentes entre as mais distintas variações da língua.
Bortoni-Ricardo (2006) expõe, ainda, outra problemática que reside nas escolas. O ensino da língua culta peca em dois aspectos: não respeita os antecedentes culturais e linguísticos do educando, que na sua maioria possui o domínio de variedade popular da língua; e é ineficiente no ensino da língua-padrão.
As diferenças linguísticas não podem ser ignoradas pela escola. E quando se pensa em escola, diz-se professores, funcionários e equipe diretiva. Pais e os próprios alunos também devem ser incluídos nesse grupo, mas necessitam de esclarecimento. E isso compete ao corpo docente, que precisa orientar os pais e os educandos quanto ao respeito linguístico. A direção deve trabalhar para que haja a conscientização de todos quanto às diferenças. Bortoni-Ricardo vale-se de exatas palavras ao falar da necessidade desse respeito:
Os alunos que chegam à escola falando “nós cheguemu”, “abrido” e “ele drome”, por exemplo, têm que ser respeitados e ver valorizadas as suas peculiaridades linguístico-culturais, mas têm o direito inalienável de aprender as variantes de prestígio dessas expressões. (2006, p. 15)

Isso não quer dizer que a escola tem o papel de terminar com as minorias linguísticas. A exemplo, Bortoni-Ricardo esclarece que nos países onde a educação é acessível a todos há décadas, as variedades populares não desapareceram. Isso se deve, principalmente, a fatores psicossociais. “As diferenças entre essas variedades e a língua-padrão tendem a ser, porém, de menor amplitude, restringindo-se ao âmbito da fonologia -da pronúncia- e de alguns traços morfossintáticos.” (2006, p. 23)
A escola tem o compromisso de diminuir essas discrepâncias linguísticas que ocorrem atualmente. Mas deve saber respeitar a identidade dos grupos pertencentes às variações existentes. Muitos grupos minoritários utilizam suas características linguísticas como um aspecto de autoafirmação da sua identidade, valendo-se da norma padrão quando a necessidade do discurso o exigir.
Quanto ao aspecto da auto-estima dos falantes de variedades não-padrão da língua, podemos perceber que:
[…] as classes mais baixas da sociedade exibem em sua linguagem uma incidência maior de variáveis linguísticas não-padrão, mas, quando submetidas a testes que avaliam atitudes, reconhecem o caráter estigmatizado dessas variáveis, julgando-as com severidade. (BORTONI-RICARDO, 2006, p. 24)

Por que há esse sentenciamento negativo? O abismo que há entre o prestígio da norma culta e as variedades padrão, associados ao nível de status social que se encontram os falantes dessas variedades populares, certamente são os motivos norteadores de tal pensamento.

2. FATORES QUE INTERFEREM NA COMUNICAÇÃO E SÃO INTERPRETADOS COMO ERROS

Os estudos linguísticos têm confirmado que todos os seres humanos são dotados de competência comunicativa, que é a capacidade que temos em comunicarmo-nos com eficiência e correção. No entanto, o ato da fala está envolto de diversas variáveis, que podem agir como reforço positivo ou negativo na elaboração da enunciação. Abordando sob a ótica da sociolinguística educacional, Bortoni-Ricardo esclarece o conceito de competência comunicativa:
[…] um membro de uma comunidade de fala tem de aprender o que dizer e como dizê-lo apropriadamente, a qualquer interlocutor e em quaisquer circunstâncias. Essa capacidade pessoal, que inclui tanto o pensamento tácito de um código comum, como a habilidade de usá-lo [...] (2006, p. 61-62)

A pesquisadora esclarece, ainda, que todo ato de fala está envolvido com um determinado grau de estresse comunicativo. Bortoni-Ricardo (2006) apud Hymes (1974a) expõe que há diferença crassa entre “[...] o que não é dito porque o falante não tem ocasião de dizê-lo e o que não é dito porque o falante não tem ou não encontra uma forma de dizê-lo.” (p. 62) Assim, um falante que não tem inserido no seu vocabulário os recursos linguísticos necessários para utilizar determinada variação linguística que se adeque a sua necessidade, terá um ato de fala inviável.
Essas pressões ou estresses comunicativos são uma mescla de condições que favorecem ou dificultam o uso da língua. A acomodação do falante a seu interlocutor, o apoio contextual, o grau de complexidade cognitiva e a familiaridade com as rotinas comunicativas são os principais fatores que interferem.

2.1 A acomodação do falante a seu interlocutor

O interlocutor é a quem o emissor ou falante se dirige. Se for uma pessoa desconhecida, de grau social superior, ou alguém que deseja impressionar, inevitavelmente haverá maior cuidado com a utilização da fala e, por consequência, maior pressão comunicativa.
Algumas pessoas chegam a tremer diante de seus chefes, ou assumem essa condição ao serem chamadas após um erro ter sido constatado dentro da empresa, sabendo ser ela mesma a culpada. O falante agirá de maneira distinta das demais situações numa ocasião como esta ou mesmo durante o momento de demissão. Numa entrevista para emprego, por exemplo, muitas expectativas estão em jogo, o que gera determinado estresse comunicativo no falante. Assim como é fácil perceber que um fã tem o seu comportamento transformado quando se defronta com o ídolo, modificando a firmeza da voz, dentre outras características visíveis. É mais uma prova de que o interlocutor, sobremaneira, tem influência direta perante aquele que fala. Obviamente, não é o interlocutor o agente da pressão comunicativa, mas a maneira como o emissor encara a imagem criada de seu interlocutor, no subconsciente. Desmitificar essa pessoa a quem se fala diminuirá o estresse comunicativo.
Da mesma forma, quando o falante irá dirigir-se a um público que não lhe assusta falar, a uma pessoa que não exerce nenhum sinal de preocupação quanto ao seu desempenho no ato da fala, a pressão comunicativa também será modificada. Desta vez, diminuída.
Além desses aspectos, as atitudes do interlocutor perante o falante durante o diálogo interferirão numa maior ou menor eficiência na transmissão da mensagem. As expressões faciais e gesticulações aprovando ou refutando as sentenças do falante, as pausas nas respostas e as modulações da voz farão com que a pressão comunicativa cresça ou seja amenizada.

2.2 O apoio contextual

O apoio contextual refere-se ao contexto em que os falantes estão inseridos. Isso diz respeito ao espaço físico e à partilha de pressuposições pragmáticas.
Numa conversação onde os falantes conversam frente a frente e noutra onde o chat ou o telefone são as ferramentas que intermediam o diálogo, falante e interlocutor agirão de maneiras distintas.
Assim como, se o falante necessitar expressar-se em um ambiente que lhe traga recordações extremamente tristes ou felizes modificará seu comportamento e, por consequência, o seu desempenho.
Dessa mesma forma, a densidade das relações sociais e os vários papéis sociais assumidos têm valoroso poder de influência no seu desempenho linguístico.
A densidade das relações diz respeito ao número de ligações realizadas pelo falante. Refere-se ao convívio com os familiares e demais pessoas com as quais interage. Em sociedades rurais, geralmente o contato das pessoas está resumido a outros falantes com os mesmos traços linguísticos, a mesma variedade de fala popular. As pessoas que lá habitam conhecem-se. Há uma menor exposição a variações linguísticas distintas. Relacionam-se, em sua maioria, com familiares e amigos. Há, assim, uma maior densidade. Uma mesma pessoa pode ser o vizinho, o amigo, o vendedor da loja e seu patrão. Para Bortoni-Ricardo (2006), isso se denomina multiplexidade de relações.
Já nas zonas urbanas, há maior contato com outras culturas, diferentes pessoas, variados dialetos. Há menor densidade das relações. Ocorre o convívio com mais pessoas. Mas para cada indivíduo, o falante assume um papel diferente. Estabelece uma relação patrão-empregado com determinada pessoa. Com outra, a relação de vizinho. Em uma terceira pessoa, assume o papel de amiga. Com outra, a relação de cliente-vendedor. A esse fenômeno dá-se o nome de relação uniplex (BORTONI-RICARDO, 2006).
Os vários papéis sociais referem-se às distintas facetas que o interagente assume no dia-a-dia: pai e marido, professor e estudante, motorista e pedestre, telespectador. Quanto mais complexa a sociedade em que o indivíduo estiver situado, maior o leque de possibilidades de papéis sociais. Uma mesma pessoa pode agir como pai, esposo, professor de uma escola, estudante de língua estrangeira, motorista de seu veículo, pedestre no centro da cidade e telespectador do telejornal ao qual assiste. Todas essas ações podem ocorrer num mesmo dia ou, dependendo da situação, ao mesmo tempo. São esses os multifacetados papéis sociais que esse indivíduo assumirá. Por consequência, exercerá funções distintas que estão sujeitas a diferentes estresses comunicativos em posições hierárquicas variadas. Assim, o falante estará mais exposto a uma maior quantidade de situações linguísticas quanto mais plural for a sociedade que compor.
Ainda, o convívio com pessoas onde o indivíduo identifica-se linguisticamente faz com que tenha mais segurança para expressar-se. Assim como a convivência com indivíduos que possuem distinta tradição linguística, diferente dialeto, exercerá influência na maneira que o falante irá expressar-se.
A essa busca por grupos que causam familiaridade linguística, a sociolinguística chama de “grupo de referência”. Bortoni-Ricardo (2006) apud Berreman (1964:232) explicou que grupo de referência:
[…] é quando as atitudes e o comportamento de uma pessoa são influenciados por um conjunto de normas que ela pressupõe que são observadas por outros, esses outros constituem para ela um grupo de referência. (p. 176)

No que tange a partilha de pressuposições pragmáticas, se for grande, haverá maior dependência contextual, pois os interagentes têm os mesmos antecedentes e isso gera necessidade de menor explicitude e precisão das palavras, uma vez que ocorre a inferência de que o interlocutor compreenderá a mensagem emitida sem a necessidade de maior escolha das palavras (monitoramento linguístico). Contudo, quando os falantes pertencem a antecedentes linguísticos e culturais distintos, necessitarão de maior escolha das palavras para fazerem-se compreender.
Intuitivamente, ao perceberem a falta dessa situação de partilha, os falantes flexibilizam o uso de termos na sua verbalização, utilizando os mais adequados à situação.
Bortoni-Ricardo esclarece essa necessidade de monitoração:
[...] os falantes têm de estar conscientes das diferenças no processo interpretativo. Não podem esperar que suas convenções comunicativas não-verbalizadas, próprias do seu grupo primário de relações, sejam compreendidas por outros e têm de demonstrar mais flexibilidade no seu repertório estilístico. (2006, p. 64)

2.3 O grau de complexidade cognitiva

A familiaridade com as tarefas linguísticas de menor complexidade ou que sejam realizadas de maneira automatizada é o terceiro fator de interferência na pressão comunicativa. Quando existe a necessidade de o falante realizar uma ação que precise do uso de competência comunicativa numa rotina que não é de seu completo domínio, terá dificuldade em expressar-se com eficácia, pois poderá realizar sentenças de sentido duplo.
Como exemplo, Bortoni-Ricardo (2006) utiliza a narração de uma história e, três situações: com um personagem, dois personagens de gêneros diferentes e vários personagens. À medida que aumenta o número de personagens, cresce a complexidade da tarefa comunicativa. Seus estudos comprovaram que crianças que narravam histórias com um único protagonista ou com dois de gêneros distintos, obtinham mais êxito nessa tarefa. Isso demonstra que o grau de abstração que uma pessoa necessita ter para compreender e expressar-se está diretamente relacionado a uma efetiva comunicação.
Da mesma forma, uma conversa trivial, informal, exige menor complexidade cognitiva dos interagentes que um diálogo formal. No primeiro, existem regras interacionais, mas são menos estritas do que as existentes num diálogo mais formal.
A conversa informal ocorre mais frouxa, mais casual. Segue uma linha de pensamento de acordo com os interesses momentâneos dos falantes.
Em contrapartida, o diálogo formal é mais planejado, monitorado, possui mais regras, o que diminui a flexibilidade estilística dos interagentes. Temos uma situação de menor complexidade cognitiva inicialmente e na sequência, de maior complexidade. Essa segunda situação só será efetivamente realizada se o falante tiver domínio de variações linguísticas que nem sempre lhe é costumeiro utilizar.

2.4 A rotina linguística

O último fator de interferência na pressão comunicativa relaciona-se às unidades comunicativas padronizadas. Bortoni-Ricardo (2006) apud Hymes (1980) define as rotinas como faculdade necessária para, por exemplo, a recitação do alfabeto, a contagem de números, saudar, identificar o formato de um soneto, compreender a rotina que engloba a cerimônia do casamento e o entendimento de instruções de caça a búfalos.
Mesmo com a universalidade de alguns traços de rotinas como as saudações, há certa especificidade cultural na mesma. Isso ocorre porque as convenções interacionais modificam de uma cultura para a outra.
Ainda, quanto mais complexa for a sociedade em que o falante está inserido, maior será o número e as variedades das rotinas linguísticas. Da mesma forma, maior será a competência que o indivíduo poderá exibir. Mas isso dependerá, sobremaneira, das relações interacionais que tecer e da multiplicidade de rotinas linguísticas que esses interagentes carregarem consigo.
3. CONTEXTUALIZAÇÃO SOCIO-HISTÓRICA DAS REGIÕES ENVOLVIDAS NO ESTUDO

3.1 O processo de alistamento e prestação do serviço militar inicial

Os jovens analisados nesta pesquisa são oriundos das cidades de Frederico Westphalen, Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito. São municípios de economias eminentemente rurais, com população que não ultrapassa os 30 mil habitantes. Os jovens servem no aquartelamento do 22º Grupo de Artilharia de Campanha, localizado em Uruguaiana, Rio Grande do Sul.
Mas antes é necessário compreender como funciona toda a sistemática de alistamento e prestação do serviço militar inicial no Exército Brasileiro. Dentro da 3ª Região Militar, que engloba as cidades estudadas (Uruguaiana, Frederico Westphalen, Seberi e Erval Seco), existe um documento que regula essa sistemática. Denomina-se “Plano Regional de Convocação para o Serviço Militar Inicial na 3ª Região Militar em 2009”.
Utilizou-se esse Plano, que teve vigência na seleção de jovens alistados no ano de 2008 e que serviram no ano de 2009, para funcionar de parâmetro e entendimento do processo de alistamento, tendo em vista que grande parcela dos militares entrevistados prestou o serviço militar inicial no ano de 2009.
Na sua apresentação, o Plano Regional de Convocação explicou a sua finalidade:
Este Plano Regional de Convocação tem por objetivo complementar os textos legais e regulamentares sobre o Serviço Militar Inicial na área da 3ª Região Militar.
A 3ª Região Militar e os órgãos de Serviço Militar (OSM) Regional subordinados são os executores das atividades relativas ao Serviço Militar no Rio Grande do Sul, em ligação com o 5º Distrito Naval e com o V Comando Aéreo Regional. (2008, p. 05)

Esse Plano Regional de Convocação foi aplicado à “classe de 1990”, ou seja, aos jovens que nasceram em 1990 e, portanto, tinham 18 anos no ano de 2008, quando se alistaram e foi iniciada a sua seleção.
Ainda, as cidades de toda a Região Militar, em específico do estado do Rio Grande do Sul, foram divididas em Municípios Tributários e Municípios Não Tributários. Conforme o número 3.1.1 do número 3.1 Município Tributário (MT) do Plano Regional de Convocação:
MT é o município considerado pelo Plano Geral de Convocação Anual contribuinte à convocação para o Serviço Militar Inicial. Dentro das suas possibilidades e localização, poderá contribuir seja apenas para as Organizações Militares da Ativa, seja apenas para os Órgãos de Formação da Reserva, seja para ambos, simultaneamente, para uma ou mais Força Armada. (2008, p. 25)

No anexo “B”, encontra-se um excerto da tabela de Municípios Tributários, relacionado pelo Plano Regional de Convocação.
Para fins de esclarecimento, os jovens oriundos dessas cidades alistam-se nas Juntas de Serviço Militar (JSM) das suas cidades.
Prosseguindo com relação à tributação dos municípios, os jovens que são residentes em municípios não tributários são dispensados do serviço militar inicial. Por consequência, aqueles cidadãos que desejam servir, realizam o seu alistamento nas cidades tributárias. Rodeio Bonito é um Município Não Tributário e por essa razão há militares entrevistados que residiam nesta cidade, mas se alistaram em municípios tributáveis.
Existe, ainda, uma divisão dos municípios, onde cada município tem a designação para um aquartelamento diferente do estado. É a “Tabela de Vinculação das SCFA/CS-JSM-OM/Marinha-Exército-Aeronáutica e Previsão de Seleção em 2008”, constante o seu extrato no anexo “C”.
Quem faz a seleção desses jovens alistados, de acordo com os prazos estipulados pelo próprio Plano Regional de Convocação, são as Organizações Militares responsabilizadas na Tabela de Vinculação, através da montagem de Comissões de Seleção (CS). Essas Comissões de Seleção Fixas realizam a seleção nas cidades-sede dos aquartelamentos (neste estudo, Uruguaiana) e Comissões de Seleção Volantes, que se deslocam até as cidades vinculadas à OM (neste estudo, Erval Seco, Frederico Westphalen e Seberi) e executam a devida seleção.
No caso do 22º GAC AP, foi montada uma Comissão de Seleção Fixa composta por 05 (cinco) Oficiais, 12 (doze) Subtenentes e Sargentos e 14 (quatorze) cabos e soldados. Os selecionados foram os jovens alistados na cidade de Uruguaiana.
Já a Comissão de Seleção Volante foi composta por 04 (quatro) Oficiais, 06 (seis) Subtenentes e Sargentos e 02 (dois) Cabos e Soldados. Os selecionados foram os jovens alistados nas cidades de Erval Seco, Frederico Westphalen e Seberi.
Para que seja visualizado todo o paradoxo da problemática sociolinguística, basta retomar a “Tabela de Vinculação (anexo 'C')”, onde se visualiza que o 8º Regimento de Cavalaria Mecanizado executa a mesma seleção, mas em cidades próximas às que o 22º GAC AP seleciona. Dessa forma, infere-se que a condição sociolinguística que os jovens oriundos do Alto Uruguai enfrentam é consoante nos militares que servem seja no 22º GAC AP (campo deste estudo), seja no 8º R C Mec.
Os 19 (dezenove) militares analisados neste estudo são oriundos das cidades do Alto Uruguai. Em específico, de Erval Seco, Frederico Westphalen, Seberi e Rodeio Bonito. Foram selecionados nas três primeiras cidades e no início do ano seguinte, passaram por outra seletiva em Uruguaiana. Nesta última seleção, foram definidos os jovens que realizariam o serviço militar inicial e os que seriam dispensados.
Isso ocorreu com os militares da classe de 1990 (nascidos neste ano) e com os de anos anteriores, pois anualmente, pouco muda no processo seletivo.

3.2 O contraste linguístico-cultural

Após compreendido todo o processo que permeia a seleção dos jovens cidadãos que se alistam e servem no 22º GAC AP, vamos à problemática sociolinguística.
Os jovens cidadãos, então civis, moravam em cidades de 30 mil habitantes no máximo: a maior, Frederico Westphalen tem quase 28 mil habitantes; e a menor, Rodeio Bonito, tem quase seis mil habitantes. Após mudar-se para Uruguaiana, passam a viver numa cidade de cerca de 130 mil habitantes, quatro vezes maior que Frederico Westphalen.
Se for ser adotado o critério utilizado pela OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que considera como centro urbano apenas as cidades com densidade demográfica maior que 150 habitantes por quilômetro quadrado e população total mínima de 50 mil habitantes, estaremos tratando de um município urbano (Uruguaiana), que é o local onde vivem os objetos deste estudo. Já as suas cidades de origem remontam a centros eminentemente rurais (Frederico Westphalen, Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito). Só esse aspecto seria o suficiente para indicar-nos a existência de um choque cultural e uma posterior necessária adaptação dos indivíduos que migram destas últimas cidades à primeira.
Atualmente, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) usa o entendimento de cidade adotado no Estado Novo. Em 1938, um Decreto-Lei assinado pelo então presidente Getúlio Vargas transformou em cidade todas as sedes municipais independentes. De acordo com dados do Censo 2000 do IBGE, existem 5507 cidades (leia-se municípios urbanos). Se fossem adotados os parâmetros da OCDE, esse número cairia para 411.
Essa diferença entre um critério e outro, tem vital importância sobre, dentre outros estudos, os sociolinguísticos. Verifica-se, ainda, que há muitas outras distinções entre ambas as regiões além da diferença entre município urbano e município rural, que serão explanadas com maiores detalhes no subcapítulo seguinte.
Ainda sobre a diferença de culturas existentes em ambas as regiões, esclareço o conceito de “rurbanos”, apresentado por Bortoni-Ricardo (2006) e que encontramos nos jovens militares estudados.
Rurbanas” são aquelas pessoas de origem rural que convivem com certa integração com a cultura urbana e as que são de origem rural, mas vivem em centros urbanos e ainda mantém consideráveis características de sua cultura rural.
O último aspecto importante a ser observado nesse contraste linguístico-cultural entre Uruguaiana e a região do Alto Uruguai: nos quartéis, usa-se uma imensa gama de expressões tipicamente militares, gírias e neologismos criados para facilitar a comunicação entre os mesmos.
À medida que uma nova linguagem é apresentada aos militares recém egressos, a variedade linguística já existente de ambas as culturas integra-se com a apresentada. Dessa forma, os militares de ambas as regiões não passam a ser interpretados como dois grupos diferentes, mas como um novo grupo linguístico distinto dos anteriores, enriquecido pelas expressões de ambos.

3.3 A colonização no Alto Uruguai e em Uruguaiana

A compreensão de todos os fenômenos linguísticos ocorridos na região do Alto Uruguai e na cidade de Uruguaiana fazem perceber a necessidade de contextualizar historicamente a colonização dessas duas regiões, para que se entenda, por completo, o surgimento de tão distintos dialetos e índices sócio-culturais.
A partir do ano de 1824, começaram a chegar ao estado do Rio Grande do Sul os primeiros imigrantes alemães. A finalidade que o Governo da época atribuiu à chegada desses imigrantes foi a colonização agrícola e manutenção das terras como brasileiras. Encontra-se uma explicação bem sucinta e clara no site RS Virtual, quanto ao objetivo dessa vinda de estrangeiros ao sul brasileiro: “tinha a finalidade de garantir a independência brasileira, ameaçada pelas tropas portuguesas que continuavam na Bahia após a declaração, e pela recusa de Portugal em reconhecer o Brasil como estado independente”.5
Os colonos alemães vinham ao Brasil com a promessa de ganhar 50 hectares de terra já povoadas com animais, auxílio financeiro, isenção de impostos, liberação do serviço militar, liberdade de culto e nacionalização imediata. Mesmo com a não concretização de alguns desses itens, o mais importante aos alemães -a posse das terras- foi assegurado.
Contudo, na segunda década do Século XIX a população gaúcha era ainda ínfima e havia diversas áreas no estado que ainda estavam desabitadas, dentre elas, a região do Alto Uruguai.
Estabeleceram-se, inicialmente, na região de São Leopoldo, depois para as Missões e então para São Borja. Tentou-se povoar o estado em todos os recantos, inclusive na divisa com Santa Catarina, em Torres. Também se estabeleceram imigrantes alemães na região de Nova Petrópolis.
Próximo aos anos 1900, todas as regiões do estado estavam povoadas por colonos alemães, em maior e menor escalas. Apenas a região do Alto Uruguai ainda não havia recebido os imigrantes. Passou-se, então, a colonizar desde Marcelino Ramos até o rio Ijuí, o que englobou a Região do Alto Uruguai.
Os italianos começaram a migrar para o Rio Grande do Sul aproximadamente na mesma época que os alemães e quase pelos mesmos motivos, ocupando uma região geograficamente mais alta que os alemães, entre 600 e 900 metros de altitude.
A colonização iniciou em 1874, muito tempo depois que os alemães. Como não poderia ser diferente, o quadro social brasileiro visualizado pelos italianos já era muito diferente daquele encontrado pelos primeiros alemães. O estado estava mais povoado e havia certo receio dos países europeus em enviar emigrantes, pois havia a ideia de que seus emigrantes passavam privações nas terras tropicais. Além disso, o governo da província pagava menos que o Governo Geral (União), fato este bastante desestimulador.
Os colonos italianos receberam propriedades menores que os alemães para cultivar: entre 15 e 35 hectares, contra 50 dos primeiros colonizadores. Plantaram, inicialmente, trigo, milho e videira. Isso fez desenvolver a produção de vinho no estado, visto inicialmente como um vinho de qualidade inferior ao europeu. Contudo, com o passar dos anos, conseguiu-se o status de vinho de qualidade, transformando o estado no principal produtor de vinhos do Brasil.
A ocupação da região do Alto Uruguai ocorreu mais tarde, conforme afirma o site RS Virtual, “ainda existia muita terra para ocupar, principalmente nas serras na encosta nordeste e no Alto Uruguai, em um total, na província, de 87 mil quilômetros quadrados de terras devolutas6”.
Já a população de Uruguaiana tem origem mais mesclada. Inicialmente, foi composta principalmente por espanhóis, portugueses e africanos. Mais tarde, vieram os árabes, italianos, alemães e franceses. Vale destacar as primeiras colonizações, sem desmerecer as outras etnias. Mas é necessário que se focalize os estudos linguísticos nas culturas que eminentemente construíram os pilares da história linguístico-cultural da região da Fronteira Oeste.
As terras uruguaianenses pertenceram, inicialmente, a Alegrete. Só então, separou-se e formou um novo município. Os espanhóis, os mesmos que povoaram a Região das Missões, ocuparam a Fronteira Oeste e introduziram a criação de gado no estado. Devido à proximidade com a Argentina e o Uruguai, misturou-se muito a vestimenta e o palavreado desses povos. A lida no campo também era uma constante na cultura argentina nas proximidades com o Brasil, o que facilitou o intercâmbio cultural, resultando numa maior proximidade com relação a costumes e língua desses povos. Contudo, os três países mantiveram as suas línguas formais intactas. O que mutou foram os dialetos locais: muito semelhantes, pegando e entregando de empréstimo termos do seu vernáculo de origem.
Diferentemente das etnias italianas e alemãs no estado do Rio Grande do Sul, a espanhola não se organizou em grupos fechados que conservam os costumes da pátria natal, mantendo as tradições. Se ocorreu alguma absorção da cultura, isto está, atualmente, enraizado na cultura gaúcha. Mas não se pode dizer que colônias espanholas perseveraram no estado, nem que há grupos que falam unicamente o espanhol. O que houve foi um distanciamento da cultura gaúcha das demais do Brasil devido à assimilação de certos costumes e falares propriamente argentinos e uruguaios.
Os portugueses tiveram um povoamento tumultuado no estado. Muitos vieram para o Rio Grande do Sul motivados pelos ganhos financeiros prometidos pelo governo da época, além das terras que supostamente lhes seriam dadas, depois de conquistadas. Enfrentando os espanhóis, procuraram estabelecer-se no sul brasileiro. A região das Missões foi conquistada em 1801, mas foi pouco habitada, com baixa densidade demográfica. Foram os militares que vieram para o sul em busca de conquistas territoriais que iniciaram o povoamento da região da fronteira com Argentina e Uruguai.
Assim como Petiz demonstra, mesmo com uma situação desfavorável de estar sendo subjugados pelos brancos, os negros transmitiram seus costumes às gerações seguintes, livres:
[…] os escravos da Fronteira Oeste do Rio Grande, assim como já vem sendo demonstrado em relação a outras áreas escravistas do Brasil Colonial e Imperial, não viviam isolados do resto da sociedade e como homens e mulheres também foram agentes ativos na produção e transformação da sociedade a que pertenciam. (2009, p.11)
A etnia africana veio para o Rio Grande do Sul através, dentre outras vias, do porto de Pelotas, diretamente da costa africana, por volta do ano de 1780. Não teve papel de destaque, pois sempre foi uma população oprimida pela escravatura. Mas foi fundamental para alicerçar as tradições gaúchas através dos seus costumes.

3.4 Constituição social, cultural, política, econômica do Alto Uruguai

Farei uma síntese sócio-cultural das cidades maternas dos jovens investigados, para que assim consigamos compreender com maior profundidade todos os fatores que envolvem a linguagem desses jovens. O quadro completo da pesquisa pode ser encontrado no anexo “A” deste artigo.
As cidades de onde os militares em questão são oriundos são Frederico Westphalen, Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito. Frederico Westphalen é a maior cidade dentre as estudadas, seguida, em ordem decrescente, de Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito. Possui pouco mais de 26 mil habitantes. Rodeio Bonito possui 5,8 mil habitantes. A maior área territorial pertence à cidade de Erval Seco (364 km²), contra 265 km² de Frederico Westphalen.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2008, Frederico Westphalen possuía mais alunos no Ensino Fundamental (4090) que as outras três cidades somadas: Seberi (1608), Erval Seco (1284) e Rodeio Bonito (852). Essa situação repetiu-se no Ensino Médio: Frederico Westphalen (1599), Seberi (450), Erval Seco (256) e Rodeio Bonito (238). Ao visualizarmos que há ensino particular apenas na cidade de Frederico Westphalen e que nas três demais só existem estabelecimentos de ensino público, notamos a importância do Estado naquela região, representado na figura das instituições de ensino estadual e federal.
Quanto aos índices econômicos que ilustram o padrão de vida dos habitantes daquelas cidades, temos a maior cidade (Frederico Westphalen) com um PIB per capita de R$ 14.302,00 e a menor (Rodeio Bonito), de R$ 9.702,00. Precisamos perceber, contudo, que os valores que a indústria e demais setores da economia movimentam em nada tem a ver com a qualidade de vida. Fica evidente esta afirmação ao analisar a média salarial da população, sendo a mais alta média salarial a de R$ 554,25, para Frederico Westphalen e a mais baixa a de Erval Seco: R$ 306,18 (Censo 2000 com Divisão Territorial 20017). Dividindo o rendimento nominal entre homens e mulheres, o índice masculino entre as cidades da região varia entre R$ 341,04 e R$ 707, 48 e o feminino, R$ 248,91 e R$ 360,58.
No que tange os estabelecimentos de ensino das cidades do Alto Uruguai, são 45 escolas de ensino pré-escolar, 54 de Ensino Fundamental e somente 9 (nove) de Ensino Médio. O mesmo fenômeno de apenas 1 (uma) escola ser particular ocorre tanto no Ensino Pré-Escolar quanto no Fundamental. Todas as demais instituições de Ensino Pré-Escolar (44) e Fundamental (53) são públicas. Apenas 1 (uma) Escola Pré-Escolar é particular. Das 54 escolas de Ensino Fundamental, 22 são em Frederico Westphalen, quase metade do total.
Já no Ensino Médio, são 9 (nove) escolas: 6 (seis) públicas e 3 (três) privadas. Há uma representação em números totais e proporcionais muito maior de escolas particulares no Ensino Médio que no Fundamental.

3.5 Constituição social, cultural, política, econômica de Uruguaiana

Comparando as cidades-natal dos jovens estudados com a cidade onde aos 18 e 19 anos passam a viver, temos o seguinte quadro:
Uruguaiana tem cerca de duas vezes e meia a população somada das quatro cidades do Alto Uruguai e uma extensão territorial mais de cinco vezes maior. O PIB per capita de Uruguaiana é de R$ R$ 17.050,00, maior que o mais elevado das outras quatro cidades estudadas, que é de R$ 14.302,00 (Frederico Westphalen).
O rendimento nominal - pessoas residentes - 10 anos ou mais de idade - com rendimento - médio mensal de Uruguaiana é pouco superior a Frederico Westphalen e consideravelmente maior que nos outros municípios do Alto Uruguai: Uruguaiana: R$ 618,21; Frederico Westphalen R$ 554,25; Seberi R$ 382,41; Erval Seco R$ 306,18 e Rodeio Bonito R$ 452,29.
A cidade da fronteira possui quase três vezes mais estudantes no Ensino Fundamental que a soma dos estudantes de Ensino Fundamental das quatro cidades do Alto Uruguai: 22809 alunos em Uruguaiana e 7834 alunos no Alto Uruguai. Esses estudantes estão distribuídos em 51 escolas na cidade da Fronteira Oeste e 54 no Alto Uruguai. Nota-se que a mesma proporção de 3 para 1 que há no quesito “alunos matriculados no ensino fundamental” fica em 1 para 1 no quantitativo de escolas de dispõem de Ensino Fundamental. O mesmo fenômeno ocorre no Ensino Médio: Uruguaiana tem 14 escolas e o Alto Uruguai, 9 escolas.
Já no ensino pré-escolar, Uruguaiana contabiliza 34 escolas pré-escolares e a região do Alto Uruguai, 45 escolas. Distribuem-se entre ensino público e privado essas escolas da seguinte maneira: 15 pré-escolas estaduais na cidade da Fronteira Oeste e 17 no Alto Uruguai. Sete escolas municipais na primeira cidade, contra 27 da segunda; e 12 particulares em Uruguaiana e apenas uma em Frederico Westphalen. Se somarmos as instituições em ensino estadual e municipal de Uruguaiana (22), atingiremos um índice menor que o encontrado apenas na cidade de Frederico Westphalen (24) e ainda menor de todo o Alto Uruguai (44). Infere-se, portanto, que o ensino pré-escolar em Uruguaiana tem na iniciativa privada uma grande pilastra na educação de suas crianças. Ora, se 35% das escolas pré-escolares de Uruguaiana são particulares, fica evidente que as camadas mais elevadas do extrato social dispõem de diversificadas opções de instituições de ensino. As turmas particulares de cada série possuem uma densidade muito menor que as públicas na relação alunos/quantitavo de escolas, o que pressupõe um atendimento menos cuidadoso por parte dos professores, devido ao grande número de alunos nas escolas: 42 alunos por escola particular e 80 alunos por escola pública.
Concluindo a análise da constituição sócio-cultural de Uruguaiana, verifica-se que dos 28798 alunos de Uruguaiana (Ensino Fundamental e Ensino Médio), 94% são oriundos de escolas públicas. Situação parecida ocorre nas cidades do Alto Uruguai: Frederico Westphalen (95%), Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito (100%). A totalidade de alunos matriculados em instituições de ensino públicas dá-se devido à não-existência de escolas privadas nem no Ensino Fundamental, nem de nível Médio.


4. METODOLOGIA DA COLETA DE DADOS

4.1 O perfil dos jovens analisados

Esta pesquisa tem como objeto de seu estudo 19 jovens oriundos das cidades do Alto Uruguai que estão servindo na cidade de Uruguaiana, no 22º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado. Desses 19, 13 realizaram o serviço militar inicial no ano de 2009 e enganjaram para o ano seguinte, 2010. Os demais incorporaram em anos anteriores.
Deste montante, apenas dois nasceram em cidades distintas do Alto Uruguai. Entretanto, ambos moravam na região quando se alistaram e migraram para Uruguaiana a fim de realizar o serviço militar inicial. Nasceram ou viveram nas cidades de Frederico Westphalen, Seberi, Erval Seco, Vicente Dutra e Rodeio Bonito.
Desses 19 jovens, sete viveram na zona rural até mudarem-se para Uruguaiana. Outros sete viveram entre 5 e 15 anos no campo, e apenas quatro nunca viveram na zona rural. Um único militar morou menos de cinco anos na zona rural.
Verifica-se que os círculos de convivência na cidade de origem modificaram-se consideravelmente com relação ao círculo que se formou posteriormente em Uruguaiana. Nas suas cidades de origem, todos moravam com pessoas da família, sejam pais, avós ou tios. Quando se fala em pais, subentende-se pai, mãe, irmãos ou ao menos um destes. Esses mesmos jovens informaram que moram ou com colegas de trabalho, sendo eles também ex-moradores da região do Alto Uruguai, ou residem no próprio aquartelamento e, por consequência, com os colegas de farda que também são oriundos da mesma região. Apenas dois militares informaram que vivem com o cônjuge e a família da mesma e outros dois, que são irmãos com a diferença de dois anos de idade, moram com a mãe em Uruguaiana. A mãe destes últimos mudou-se para esta cidade após os dois passarem a servir.
Confirma-se a ideia de Bortoni-Ricardo (2006) de que os jovens, enquanto migrantes e reunidos em grupos de pessoas oriundas da mesma região, cultura ou língua, tendem a, mesmo em sociedades menos densas, que é o caso de Uruguaiana com relação às cidades do Alto Uruguai, manterem a densidade de origem dos papéis sociais.

4.2 Contextualização do ambiente de trabalho

Há uma peculiaridade no ambiente militar no que tange o aspecto do convívio entre os militares. São realizadas atividades duradouras, com destaque para os acampamentos, geralmente de quatro dias, isolados de contato com civis e o serviço rotineiro de guarda ao aquartelamento. Neste último, são mínimas 24 horas de serviço onde se trava contato praticamente apenas com militares. Dadas essas condições e por outras motivações onde pode ser incluído o culto às tradições, criou-se uma cultura de valorização da família militar. Isso abrange os familiares dos militares e os próprios, no sentido de todos constituírem uma grande família “verde-oliva”.
Esse contexto onde os jovens são inseridos ao chegarem à cidade fronteiriça auxilia para que a convivência desses migrantes resuma-se aos próprios ex-moradores do Alto Uruguai e, quando muito, a outros militares nascidos em Uruguaiana.
Além do que já foi dito, há de ser considerada a questão de relacionamento existente entre as patentes. É bem visível a distinção que há entre os “círculos hierárquicos”: oficiais relacionam-se com oficiais, subtenentes e sargentos entre si e cabos e soldados, igualmente consigo. Existe, sim, o diálogo entre militares de postos e graduações distintos, mas geralmente não é aprofundado além de uma conversa trivial ou meramente profissional. As relações de amizade costumam ser entre os militares de mesma graduação.
Outro aspecto relevante atinente ao relacionamento dos jovens do Alto Uruguai é a distinção que existe em relação aos militares daquela região e os que moravam em Uruguaiana desde antes de servirem. Chama-se “o pessoal/os soldados de Uruguaiana” e “o pessoal/os soldados da serra”. Esta última denominação dá-se a uma imagem distorcida da geografia gaúcha por parte dos uruguaianenses. Visualiza-se como serrana toda a pessoa que seja pertencente à Mesorregião Noroeste (de acordo com divisão realizada pelo IBGE8). Contudo, a região serrana do Rio Grande do Sul localiza-se na Mesorregião Nordeste.
Em consequência dessa equivocada interpretação geográfica, criou-se a alcunha de “serráqueo” ou “da Serra” a todo militar oriundo da região do Alto Uruguai.
Este epíteto pode parecer, à primeira vista, uma discriminação social sutil devida à variação linguística existente entre os jovens do Alto Uruguai e os naturais de Uruguaiana. Contudo, em nenhum momento algum soldado mostrou-se ofendido ou relatou que foi/sentiu-se ofendido com tal denominação. Até então, houve a percepção de apenas tratar-se de brincadeira.
Vale ressaltar, também, a existência de uma disputa camuflada entre os militares naturais de Uruguaiana e os do Alto Uruguai. Logo após incorporarem ao Exército, torna-se visível a separação que há entre os uruguaianenses e os oriundos do Alto Uruguai. Estranhos uns para os outros, agrupam-se por afinidade. E um dos critérios que mais pesa é a origem. Dessa forma, os uruguaianenses fecham-se em grupos e os demais, noutro. Percebe-se, neste momento, um reforço dos vínculos culturais de ambas as culturas e a luta pela sobrevivência das mesmas através do próprio isolamento, onde é mais difícil pessoas de características culturais diferentes aproximarem-se. Mas esse isolamento diminui com o passar dos dias e as culturas integram-se, seja pela força da necessidade do trabalho ou pela proximidade física dos indivíduos de ambas as culturas e a percepção de que é possível a convivência amistosa entre eles, inclusive porque estão inseridos no mesmo ambiente de trabalho militares de traços culturais ainda mais distintos, oriundos do Centro-Oeste, Nordeste e Norte (oficiais e sargentos de carreira).
Uma hipótese para essa convivência pacífica entre culturas distintas é o caráter dinâmico de culturas que existe nos quartéis. O plano de carreira dos militares prevê constantes mudanças dos mesmos. Costumam “rodar” o país, servindo dois, três ou quatro anos, geralmente, em cada cidade, em estados diferentes. Isso, é importante frisar, ocorre com militares de carreira: oficiais, subtenentes e sargentos. Raramente ocorre com cabos e soldados. Por consequência, os militares do escalão mais baixo (cabos e soldados), que são os objetos deste estudo, acostumam-se e passam a tolerar, de maneira pacífica, as diferentes variantes linguísticas existentes nos quartéis.
Uma última variante encontrada no ambiente de trabalho dos jovens estudados é a situação deste pesquisador com relação aos militares objetos do estudo. Também sou militar e convivo diariamente com os rapazes pesquisados. Alguns, inclusive, trabalham diretamente comigo. Meu posto é o de tenente e, evidentemente, sou mais antigo que eles. De sete entrevistados, fui um dos militares responsáveis pela formação militar no ano anterior. Isso demonstra, a estes últimos em grau maior, estresse comunicativo devido à situação vertical hierárquica de “chefe-empregado” ou em termos militares “comandante-comandado” existente entre entrevistador e entrevistados.

4.3 A coleta de dados

A pesquisa iniciou com a observação direta dos atos de fala dos jovens estudados, no dia-a-dia, através de conversas rotineiras, do diálogo direto com eles ou ouvindo alguma conversa onde pelo menos um dos falantes fosse oriundo do Alto Uruguai.
Após isso e definida a pesquisa, foi entregue aos militares um breve questionário, para que houvesse um conhecimento prévio sobre as rotinas dos mesmos antes e depois da chegada a Uruguaiana e dados como nome completo, idade, cidade de nascimento, tempo de vida rural e grau de estudo.
Após isso, os jovens foram entrevistados em grupos de três ou quatro militares, a fim de compensar a inerente pressão comunicativa existente devido à diferença de patentes minha e dos entrevistados.
Além disso, o ambiente da entrevista foi mantido sempre o mesmo para todas elas: no mesmo local e iniciando com uma breve explanação sobre o motivo das perguntas. As informações iniciais foram transmitidas aos entrevistados em tom informal, assim como a condução de toda a entrevista.
Os militares consentiram em ter as entrevistas gravadas para que mais tarde fossem decupadas e analisadas. Elas serviram como instrumento para confirmar algumas e refutar outras tantas hipóteses elaboradas no início da pesquisa sobre preconceitos linguísticos ocorridos nos jovens oriundos do Alto Uruguai.
De acordo com as respostas dos entrevistados e acompanhando as reações corporais, podia-se perceber a ascendência ou descendência do nível de estresse comunicativo dos mesmos.
Foram elaboradas perguntas diretas e que não exercitavam em demasia as habilidades cognitivas dos militares, para que não houvesse um desempenho melhor ou pior unicamente por este motivo. Não foi explicitada a atenção ao modo de falar dos entrevistados e as perguntas e observações feitas pelo pesquisador foram realizadas em tom coloquial e com o uso amplo, inclusive, de variedade popular da língua, para que esse fator da rotina linguística não determinasse a interação nem suscitasse ao monitoramento linguístico.
Servido dessas informações e condições, foi realizada a análise das respostas.
5. ANÁLISE DOS RESULTADOS

As entrevistas serviram como fundamental material para análise e compreensão das variantes envolvidas na fala dos militares do Alto Uruguai, em Uruguaiana. Percebeu-se que o preconceito linguístico, muitas vezes arraigado na cultura dominante, perpassa as classes mais baixas, disseminando-se. Contudo, alguns aspectos importantes do contexto sócio-cultural no qual os jovens estudados estão inseridos, forjam um certo equilíbrio linguístico entre eles.
Inicialmente, há de ser percebida a dificuldade encontrada por alguns jovens em terminar os estudos, concluindo o Ensino Médio. Contudo, mesmo com o baixo grau de erudição dos pais, apenas dois entrevistados não iniciaram o Ensino Médio. Os demais concluíram a 1ª, 2ª ou 3ª Série do Ensino Médio. Nenhum pai ou mãe dos estudados possui o Ensino Médio completo e a maioria deles sempre trabalhou na zona rural.
Como exemplo, tem-se o jovem E. L. Morou na zona rural, distante 18 quilômetros da cidade. Até a oitava série, estudou num colégio rural. O Ensino Médio foi realizado na cidade, tendo em vista não haver escola com Ensino Médio na zona rural. Partindo do pressuposto que naquela comunidade a distância da cidade era muito grande e o tempo de deslocamento para chegar à escola e depois para retornar ser demasiado, presume-se ser este o motivo do baixo índice de militares que moram no campo e estudam até completar o colégio.

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Pesquisador: E a escola que tu fez, era da cidade ou tinha escola rural lá?
Militar E.L.: Tem, até a 8ª série tem no interior, aí que eu fiz. Uma só escola, da primeira à oitava. Aí o primeiro, segundo e terceiro ano fiz na estadual... [escola da cidade]
P.: Lá na cidade?
E.L.: Levava uma hora e pouco praí e uns cinquenta minutos pra voltar.
[…] Mais de uma hora pra ir. Porque o mesmo transporte que ia deixando o pessoal do Ensino Fundamental, da tarde, ia pegando o pessoal do Ensino Médio, da noite. Aí era mais volta, ainda, pra chegar até a cidade. Ele [o ônibus] ia largando o pessoal e ia pegando outros. Aí, de noite, só largava, né? Aí era mais rápido.


Outro fator, já citado em “3. contextualização sócio-histórica das regiões envolvidas no estudo”, é a questão de, ainda que duas culturas estejam sendo forçadas a conviverem juntas, a partir do momento que os jovens incorporam às fileiras do Exército, passam a pertencer (e conviver empiricamente) a uma terceira cultura, a militar. E esta cultura, assim como as demais, também é envolta de cerimoniais, costumes e variação linguística própria.
Estou falando do ambiente militar, onde expressões típicas da vida militar são incorporadas ao vocabulário dos novatos, mesmo que sejam oriundos de regiões distintas e possuam, cada qual, o seu vernáculo materno.
Percebe-se a utilização da palavra “desemboca” em '9', pelo militar E. L., quando intencionava dizer que os militares oriundos da sua região eram mais competentes, destrinchados:
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Pesquisador: Alguém já falou alguma coisa: esses gringo, falam errado...
E.L.: [risada] Ah, sempre tem, né?
P.: Má tipo o quê?
D.R.: Tipo assim, uma pessoa qué remedá, imitá, tirá pra chacota.
P.: Mas algo assim, muito grave?
Militar E.L. e militar D.R.: Não.
D.R.: Só brincadeira, mesmo.
E.L.: Não adianta, tem que levá na brincadeira. Porque quem desemboca é o pessoal de lá.


Nota-se, neste excerto, além da convivência pacífica entre os militares, o corporativismo existente nos jovens do Alto Uruguai. Esta é uma situação corriqueira nos aquartelamentos que possuem militares de regiões distintas. Devido à crescente ocupação de vagas no quartel por parte dos militares do Alto Uruguai, eles passaram a sentir-se mais destrinchados, competentes que os militares naturais de Uruguaiana.
Para reforçar o grupo, unem-se os militares que possuem maiores afinidades. Um dos critérios escolhidos é a origem: militares do Alto Uruguai cooperam entre si. E militares de Uruguaiana, fazem o mesmo, entre eles.
No exemplo anterior, fica claro que, devido à rotineira utilização da variante linguística peculiar do Alto Uruguai e da variante linguística militar, os entrevistados encontram-se familiarizados com as rotinas linguísticas as quais estão sujeitos diariamente. Realizam a mudança de código de acordo com a situação comunicativa, exprimindo-se ora na variante de origem, ora na variante de prestígio no meio militar.
Inclusive, há um sentimento de orgulho das origens, ocasionado pela necessidade de conforto dos provenientes do Alto Uruguai, na atual cidade, Uruguaiana:
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P.: Vocês chegam a cuidar o modo de falar, essas coisa? Tipo, ah, essa palavra eu não vou falar porque vão ri...
D.R.: Mas eu não, eu tenho o meu jeito e falo.


Esse orgulho do seu jeito de falar (3) demonstra qual é o grupo de referência adotado pelos militares do Alto Uruguai: é a própria origem linguística, os demais habitantes do Alto Uruguai. Em nenhum momento algum militar insinuou que mudou seu modo de falar para ser aceito na sociedade. Se houve alguma variação linguística, isso se deve ao convívio diário com outras variantes, sem monitoração alguma.
Felizmente, a tolerância linguística mostra-se como uma constante, dado o fato que esses militares entrevistados já morem em Uruguaiana, no mínimo, há um ano. É como demonstra a resposta de um militar:
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P.: Por causa disso [do sotaque, da sua fala distinta dos moradores naturais de Uruguaiana], falaram mal do seu modo de falar na rua, ali, nas loja...?
D.R.: Aonde eu fui atendido, ninguém falou nada.


Um aspecto que poderia preocupar e incidir para o lado da discriminação acaba por ser amenizado na relação diária dos militares: o uso do epíteto “serráqueo” aos jovens do Alto Uruguai, incorrendo num erro crasso de geografia, atribuindo à região do Alto Uruguai a denominação de Serra e a aglutinação de serrano e terráqueo, formando “serráqueo”, induzindo ao pensamento de que todo militar do Alto Uruguai é uma espécie de extraterrestre.
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P.: Já chamaram vocês de serráqueo? Incomoda?
D.R.: Já, sempre.
P.: Incomoda?
D.R.: Não, eu não. Eu tenho orgulho de morá lá.


Nesses exemplos ilustrados acima nota-se que os falantes estão acostumados aos interlocutores, que são os demais militares de mesma graduação. Esses militares usam os mesmos jargões militares e convivem diariamente, o que faz diminuir consideravelmente o estresse comunicativo dos falantes.
Contextualmente falando, o mesmo fenômeno ocorre: inseridos no ambiente militar, sob as mesmas condições que os militares de Uruguaiana, o apoio contextual passa a trabalhar favoravelmente à atividade comunicativa dos militares de modo geral.
Do mesmo modo que a cultura dos militares do Alto Uruguai causa estranheza aos uruguaianenses, alguns costumes de Uruguaiana são vistos negativamente pelos militares do Alto Uruguai. No extrato da entrevista, D.R. reclama da frieza encontrada em Uruguaiana (3), fato este que não ocorre na sua cidade natal (7) e (8 e 9):
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D.R.: Também, lá, as pessoas, se é porque a gente conhece todo mundo lá, mais lá se tu não conhecer alguém, tu cumprimenta as pessoa, todo mundo se cumprimenta. Aqui eu saio na rua, ninguém me dá um oi, ninguém me dá bom dia, ninguém dá boa tarde. Lá, tá loco.
P.: Sentiu muito essa diferença?
D.R.: Lá, tem uma pessoa do otro lado da rua, ela já te cumprimenta. Aqui não acontece isso.
E.L.: Até o trânsito é diferente, né? Aqui um pedestre atravessou a faixa, tem que atravessar correndo.


Não foi constatado nenhum caso de bilinguismo entre os entrevistados. Apesar de possuírem familiares de grau de parentesco próximo, bilíngues, a língua estrangeira não foi ensinada aos jovens militares:

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D.R.: minha vó fala toda errada...
P.: É?
D.R.: Fala italiano que tá loco!
P.: E tu fala?
D.R.: Poucas palavras. Falo bem poco, uma palavra que otra.
E.L.: Tem uma senhora lá [Erval Seco] que eu conheço, a gente ia na casa dela até, a mãe conhece ela. Aí ela começava a falar em português, só que a mãe entende português, só. Dali a pouco ela nem se tocava e tava falando em alemão. Aí ela repetia tudo de novo em português.


Os entrevistados percebem as distâncias existentes entre os militares de Uruguaiana e os do Alto Uruguai, no aspecto línguístico. Relevam as diferenças, apontando que não veem muita distinção entre os falares. Apenas o “r” falado é apontado como a única diferença que merece ser levada em conta:
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D.R.: De uma cidade pra otra, já puxa bastante o 'erre'.
P.: Ah, é?
D.R.: Tipo, ali, Rodeio Bonito, ninguém fala 'erre', todo mundo fala 'ere'. P.: E além da, dessa diferença aí, da fala do 'erre', que mais de diferente vocês viram? Não só na fala, mas em otros aspectos. Nas pessoas de lá pra cá.
E.L.: Tem algumas gírias, aí, né? Aqui, tipo, o pessoal é mais tradicionalista e lá, pelo menos lá não é tanto, acho, né? Tem mais gíria. Até o militar V.G. fala umas gíria aí, de cavalo e coisa.
D.R.: Gíria gauchesca, mesmo, aqui tem bem mais. [não percepção da variante internalizada] Mas, sei lá, esse negócio de gaúcho, andá a cavalo, tem em todo lugar.


Os entrevistados também destacaram o não uso do pronome “ti” nas falas dos uruguaianenses:
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P.: Vocês acham que falam errado?
Militar C.B.: Não! Eu falo normal...
S.S.B.: Cada cidade muda... o palavrear, o sotaque que tem. Vai em Porto Alegre, Novo Hamburgo, ninguém fala... aqui todo mundo fala, o pessoal é bacudo. Aqui ninguém fala o “ti”, ali pra cima todo mundo fala o “ti”.


As redes sociais dos militares oriundos do Alto Uruguai crescem no momento que eles migram das suas cidades para Uruguaiana, passando a conhecer novas pessoas, pertencentes a uma cultura diferente. Entretanto, após esse crescimento controlado das suas redes sociais, pelo fato de estarem deslocados da cidade natal e dos familiares, tendem a relacionar-se apenas com militares.
Essas relações ocorrem, em primeira instância, entre os próprios militares do Alto Uruguai, incorporados nos diversos anos, para atividades de lazer, como passeios e saídas em festas. Além disso, ou esses jovens moram nos aquartelamentos e, inevitavelmente, convivem com os outros militares do Alto Uruguai, ou alugam uma casa/apartamento na cidade e passam a morar juntos. Mas esse habitar na coletividade só diz respeito aos jovens do Alto Uruguai. É raro acontecer a situação de um uruguaianense morar junto com alguém do Alto Uruguai.
Isto, fatalmente, ocasiona numa maior densidade das relações em Uruguaiana que no Alto Uruguai, contrariando a tendência natural que seria de diminuir a densidade devido à cidade ser maior que as de origem.
O fato de estarem deslocados da família e encontrarem no ambiente militar um local propício para tecer relações, faz com que os colegas de farda sejam também os amigos de festa e coabitantes da moradia.
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P.: Ficou quanto tempo como laranjeira? Ficou, né?
C.B.: Um ano. Todo o ano de EV. [ano que presta o serviço militar inicial] [...] Fui morar com o pessoal que já morava aqui, também era de Frederico. Conheci eles aqui no quartel. Já eram antigos, já. Aí quando enganjei eles me convidaram pra ir morar com eles.
P.: E agora, tá morando com quem?
C.B.: Eu tô morando sozinho.


O jovem citado acima se mudou do campo para a cidade quando tinha, aproximadamente, seis anos de idade. Contudo, continuou, junto com o pai, a trabalhar na zona rural. Até hoje, o seu pai mora na cidade e trabalha no campo. O jovem e seu pai são exemplos claros de “rurbanos”: moradores rurais que migraram do campo, mas continuaram vinculados ao trabalho na zona rural. Por ser a cidade que morava de forte cultura rural, o pai permaneceu na atividade agrária. Ele, entretanto, depois de um tempo morando na cidade, passou a trabalhar na zona urbana.
O mesmo militar explicou o motivo da pobreza da rede de relações assumida em Uruguaiana:
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P.: Além do pessoal de casa, né, com quem mais vocês conviviam?
C.B.: Com os amigos, do colégio, né. É... colega de trabalho, colégio...
P.: E aqui, com quem mais convive?
C.B.: Eu, no meu caso, o pessoal do quartel.
P.: Que é de lá? Ou daqui?
C.B.: É, que é de lá, que é daqui, também. Porque aqueles que vêm pra cá, o pessoal da serra, assim ó: eu, praticamente convivo praticamente só com pessoal do quartel, porque não tenho família... É poucas pessoas que a gente conhece que, assim, é civil.
M.A.: É, é pouca.
C.B.: Porque a gente trabalha no quartel, não tem contato com o pessoal lá fora. É poucas pessoas que a gente conhece lá fora.


Percebe-se em 11 e 12, desse modo, que a estagnação na multiplicidade das redes de relações dá-se pelo pouco contato com pessoas externas ao aquartelamento. Isso ocorre porque no trabalho militar, há pouca necessidade de convívio com pessoas que não são militares, dada a peculiaridade da própria profissão.




CONCLUSÕES

O suposto preconceito linguístico deduzido no início da pesquisa foi refutado, fruto do comum uso de uma terceira variante linguística, a variante militar, não incluída no início do estudo.
O que ocorre no campo sociolinguístico não passa de um mero estranhamento entre os militares de Uruguaiana e do Alto Uruguai, com relação a termos utilizados por ambas as culturas. Essa situação anda em mão dupla: os militares de Uruguaiana estranham a variante linguística carregada no vernáculo dos militares do Alto Uruguai; e estes últimos também desconhecem as expressões propriamente fronteiriças.
Não se pode dizer, entretanto, que os militares do Alto Uruguai não são estereotipados. A todo originário daquela região, alcunha-se de militar “da serra” ou “serráqueo”. E são vistos como um grupo distinto dos militares de Uruguaiana. Apesar desagradável à primeira vista, não incomoda os militares do Alto Uruguai. Pelo contrário, valoriza-lhes como militares diferenciados da maioria, que é de Uruguaiana.
A origem humilde dos entrevistados, principiando pela baixa escolaridade dos pais dos mesmos, não é refletida no quadro de escolaridade dos militares pesquisados, mas sim, no uso da variante linguística própria da região do Alto Uruguai.
Os militares “rurbanos”, havendo ou não o incentivo dos pais em casa para estudar, realizaram grande parte dos estudos escolares.
A cultura eminentemente rural da região do Alto Uruguai fez com que muitos jovens trabalhassem no campo, mesmo enquanto moradores da cidade. Expressões e sotaques que possivelmente seriam encontrados em militares provenientes de áreas rurais não são vislumbrados, devido ao maior contato que os mesmos tiveram com a variante de prestígio, a norma padrão, durante os anos de estudo na escola.
Uma dose de ufanismo foi encontrada entre os ex-moradores do Alto Uruguai, na percepção de que os militares oriundos daquela região desembocam mais que os de Uruguaiana, são mais competentes. Isso tem origem na valorização da própria cultura, da terra, e na ocupação das vagas previstas de enganjamento, onde o número de militares do Alto Uruguai que enganjam tem sido superior, em números percentuais, que o de Uruguaiana.
Esse apego à terra natal, à origem, explica o grupo de referência ao qual os pesquisados reportaram-se. Como forma de autoproteção e valorização a sua cultura, os militares têm nos colegas do Alto Uruguai a sua referência linguística. Isso incorre na manutenção da maior parte dos traços fonológicos que lhes caracterizam e numa pequena variação, inerente ao convívio diário com outras culturas, outras variantes.
Os papéis sociais dos militares do Alto Uruguai têm-se mantido parcos em Uruguaiana, não assumindo formas muito diferentes de colega de trabalho, amigo e companheiro de quarto ou alojamento.
Nas cidades de nascimento, as pessoas de maior relacionamento eram amigos, colegas de escola e de trabalho. Já em Uruguaiana, esse leque diminuiu para os colegas de trabalho e outros moradores da terra natal.
A densidade das relações manteve-se grande, contrariando a lógica de que a mudança para uma cidade maior e num ambiente de trabalho diferente do anterior, o indivíduo teceria mais relações sociais. Isso se deve ao próprio ambiente militar que provoca o convívio maior entre os colegas de farda nas atividades rotineiras e aos trabalhos, que costumam ser dentro da área aquartelada, sem contato com civis. Contribui para isso o deslocamento ocorrido da cidade natal para Uruguaiana. Sem o suporte familiar, os militares passam a adotar os colegas de trabalho como sua segunda família e a conviver tão somente com eles.
Esse é o espectro da condição linguística em que os militares do Alto Uruguai estão sujeitos em Uruguaiana. O inicial choque linguístico-cultural, o posterior ambiente favorável à aquisição da nova variante linguística, a variante militar, e a convivência intensa com outros militares de cultura diferente, permeiam os fenômenos linguísticos dos militares que se mudam do Alto Uruguai para Uruguaiana.



REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa. 6 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2001.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico – o que é, como se faz. 43 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Nós cheguemu na escola, e agora? Sociolinguística & educação. 2 ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

ENCONTRO ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NO BRASIL MERIDIONAL, 4, 2009, Curitiba-PR. PETIZ, Silmei de Sant'Ana. Caminhos cruzados: senhores e escravos da fronteira oeste do Rio Grande. Curitiba: [s.n.], 2009. Disponível em http://www.labhstc.ufsc.br/ivencontro/pdfs/comunicacoes/SilmeiSantAnaPetiz.pdf . Acesso em 15 de junho de 2010.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2000. Disponível em http://www.ibge.gov.br/cidadesat/ acessado nos dias 23 de fevereiro e 19 de março de 2010.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2000. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/cartogramas/mesorregiao.html acessado em 19 de março de 2010.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2000. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/cartogramas/microrregiao.html acessado em 19 de março de 2010.

PLANO REGIONAL DE CONVOCAÇÃO PARA O SERVIÇO MILITAR INICIAL NA 3ª REGIÃO MILITAR EM 2009 CLASSE 1990 – SELEÇÃO 2008. [S.I.: s.n.]. 2008-2008.

Site Brasil Channel. 14 de junho de 2010. Disponível em http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Uruguaiana&uf=RS. Acesso em 14 de junho de 2010.

Site RS Virtual. 14 de junho de 2010. Disponível em http://www.riogrande.com.br/historia/colonizacao5c.htm acessado em 14 de junho de 2010.

ANEXO “A”
QUADRO COMPARATIVO³ DOS ÍNDICES SÓCIO-EDUCACIONAIS DAS CIDADES DE URUGUAIANA², FREDERICO WESTPHALEN, SEBERI, ERVAL SECO E RODEIO BONITO¹

INFORMAÇÕES
URUGUAIANA
FREDERICO WESTPHALEN
SEBERI
ERVAL SECO
RODEIO BONITO
Pessoas residentes - resultados da amostra - municípios vigentes em 2001
127.045 habitantes
26.759 habitantes
11.349 habitantes
8.196 habitantes
5.880 habitantes
Área da unidade territorial
5.716 km²
265 km²
301 km²
364 km²
83 km²
PIB per capita
R$ 17.050,00
R$ 14.302,00
R$ 11.147,00
R$ 10.295,00
R$ 9.702,00
Rendimento nominal - pessoas residentes - 10 anos ou mais de idade - com rendimento - médio mensal - municípios vigentes em 2001
R$ 618,21
R$ 554,25
R$ 382,41
R$ 306,18
R$ 452,29
Rendimento nominal - homens residentes - 10 anos ou mais de idade - com rendimento - médio mensal - municípios vigentes em 2001
R$ 730,25
R$ 707,48
R$ 437,88
R$ 341,04
R$ 585,51
Rendimento nominal - mulheres residentes - 10 anos ou mais de idade - com rendimento - médio mensal - municípios vigentes em 2001
R$ 453,10
R$ 360,58
R$ 302,92
R$ 248,91
R$ 270,63
Matrícula - Ensino fundamental - 2008
22.809 alunos
4.090 alunos
1.608 alunos
1.284 alunos
852 alunos
Matrícula - Ensino fundamental - escola pública estadual - 2008
13.423 alunos
2.612 alunos
872 alunos
761 alunos
597 alunos
Matrícula - Ensino fundamental - escola pública municipal - 2008
8.066 alunos
1.310 alunos
736 alunos
523 alunos
255 alunos
Matrícula - Ensino fundamental - escola privada - 2008
1.320 alunos
168 alunos
0 aluno
0 aluno
0 aluno
Matrícula - Ensino médio - 2008
5.989 alunos
1.599 alunos
450 alunos
256 alunos
238 alunos
Matrícula - Ensino médio - escola pública estadual - 2008
5.595 alunos
1.154 alunos
450 alunos
256 alunos
238 alunos
Matrícula - Ensino médio - escola pública federal - 2008
0 aluno
253 alunos
0 aluno
0 aluno
0 aluno
Matrícula - Ensino médio - escola privada - 2008
394 alunos
192 alunos
0 aluno
0 aluno
0 aluno
Matrícula - Ensino pré-escolar - 2008
2.269 alunos
526 alunos
171 alunos
142 alunos
134 alunos
Matrícula – Ensino pré-escolar – escola pública estadual
639
228
95
55
0
Matrícula – Ensino pré-escolar – escola pública municipal
1.125
271
76
87
134
Matrícula – Ensino pré-escolar – escola pública particular
505
27
0
0
0
Docentes - Ensino fundamental - 2008
1.141 professores
281 professores
140 professores
106 professores
64 professores
Docentes - Ensino médio - 2008
364 professores
111 professores
37 professores
23 professores
20 professores
Escolas - Ensino fundamental - 2008
51
22
15
11
6
Escolas - Ensino fundamental - escola pública estadual - 2008
28
11
4
5
2
Escolas - Ensino fundamental - escola pública municipal - 2008
18
10
11
6
4
Escolas - Ensino fundamental - escola privada - 2008
5
1
0
0
0
Escolas - Ensino médio - 2008
14
6
1
1
1
Escolas - Ensino médio - escola pública estadual - 2008
11
2
1
1
1
Escolas - Ensino médio - escola pública federal - 2008
0
1
0
0
0
Escolas - Ensino médio - escola privada - 2008
3
3
0
0
0
Escolas - Ensino pré-escolar - 2008
34
25
7
11
2
Escolas - Ensino pré-escolar - escola pública estadual - 2008
15
10
3
4
0
Escolas - Ensino pré-escolar - escola pública municipal - 2008
7
14
4
7
2
Escolas - Ensino pré-escolar - escola privada - 2008
12
1
0
0
0


Fonte:
1. Pesquisa sobre Frederico Westphalen, Seberi, Erval Seco e Rodeio Bonito realizada em 23 de fevereiro de 2010.
2. Pesquisa sobre Uruguaiana, realizada em 19 de março de 2010.
3. Ambas as pesquisas realizadas no endereço: http://www.ibge.gov.br/cidadesat
ANEXO “B”
EXTRATO DOS MUNICÍPIOS TRIBUTÁRIOS, CONSTANTE NO ANEXO “Q” AO PRC 2008-2009 (Páginas Q.1, Q.2, Q.3 e Q.4)



CSM¹
Del SM²
JSM³
CS4
MUNICÍPIOS
10ª
009
029
050
Frederico Westphalen
10ª
009
028
050
Erval Seco
10ª
001
090
049
Uruguaiana
10ª
009
081
050
Seberi


Legenda:
1. CSM: Circunscrição de Serviço Militar;
3. JSM: Junta de Serviço Militar; e
2. Del SM: Delegacia de Serviço Militar;
4. CS: Comissão de Seleção.


EXTRATO DO MUNICÍPIO NÃO TRIBUTÁRIO, CONSTANTE NO ANEXO “Q1” AO PRC 2008-2009 (Página Q.1.6)




CSM¹
Del SM²
JSM³
MUNICÍPIOS
10ª
009
060
Rodeio Bonito


Legenda:
1. CSM: Circunscrição de Serviço Militar;
3. JSM: Junta de Serviço Militar.
2. Del SM: Delegacia de Serviço Militar; e



ANEXO “C”
EXTRATO DA TABELA DE VINCULAÇÃO DAS SCFA/CS-JSM-OM/MAR-EX-AER E PREVISÃO DE SELEÇÃO EM 2008, CONSTANTE NO ANEXO “B” AO PRC 2008-2009 (Páginas B.8 e B.9)

Municípios
OM a serem atendidas
Número provável de apresentações9
Necessidade de incorporação/matrícula10
OM11 encarregada12
Erval Seco
22º GAC AP
60


70


22º GAC AP
Frederico Westphalen
250
Seberi
105
Alpestre
8º R C Mec
100

100
8º R C Mec
Nonoai
100
Planalto
90




Uruguaiana
8º R C Mec¹





1220



420




Cmdo 2ª Bda C Mec
22º GAC AP²
3ª Bia AAAe³
2º Pel PE4
H Gu U5
Esqd Cmdo/2ª Bda C Mec6
DEL-UG7
04
DTCEA-UG8
04



Legenda:
1- 8º R C Mec: 8º Regimento de Cavalaria Mecanizado;
2- 22º GAC AP: 22º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado;
3- 3ª Bia AAAe: 3ª Bateria de Artilharia Antiaérea;
4- 2º Pel PE: 2º Pelotão de Polícia do Exército;
5- H Gu U: Hospital da Guarnição de Uruguaina;
6- Esqd Cmdo/2ª Bda C Mec: Esquadrão Comando da 2ª Brigada de Cavalaria Mecanizada;
7- DEL-UG:
8- DTCEA-UG:
9- Número provável de apresentações: jovens selecionados em suas cidades que irão realizar a última seleção na cidade de Uruguaiana no ano seguinte;
10- Necessidade de incorporação/matrícula: efetivo de jovens das cidades supracitadas que irão servir nos respectivos aquartelamentos;
11- OM: Organização Militar; e
12- OM encarregada: Organizações Militares responsáveis por fazer os processos seletivos.

1Trabalho de Conclusão do Curso de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS – Campus Uruguaiana.
2Autor - Acadêmico do Curso de Letras da PUCRS – Campus Uruguaiana.
3Orientadora - Professora da PUCRS – Campus Uruguaiana.
4Atualmente, a grafia é “autoestima” e “autoaversão”.
5Para mais informações, acesse http://www.riogrande.com.br/historia/colonizacao4.htm
6Para mais informações, acesse http://www.riogrande.com.br/historia/colonizacao5c.htm
7Mais informações em http://www.ibge.gov.br/cidadesat/
8Mais informações em http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/cartogramas/mesorregiao.html

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