sábado, 28 de maio de 2011

A dita fala "errada"

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 29 de maio de 2011.

“Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. Esta frase tornou-se hit em jornais, telejornais, rádios e na internet depois que o MEC publicou o livro “Por uma vida melhor”, destinado à Educação de Jovens e Adultos. Você, certamente, condena que escrevam dessa maneira. Mas, sem sombra de dúvidas, já falou assim ou parecido. Não consigo imaginar alguém, até mesmo aqueles gramáticos mais conservadores, falando “se vós soubésseis” à mesa, num estádio de futebol ou no barzinho com os amigos no happy hour (segundo o deputado Raul Carrion, 'numa hora feliz'). Da mesma forma que ninguém seria louco de palestrar num seminário falando “e aí, pessoal, vim aqui dá um lero proceis”.

Esse debate formado acerca do falar certo/adequado ou errado/inadequado é muito interessante. Saem mais maduros do confronto de ideias os pró-livro do MEC e aqueles que são contra. E isso é ótimo. O que desagrada é perceber a quantia de informações desencontradas sobre esse assunto. O Jornal Nacional noticiou, na abertura da sua edição do dia 13 de maio, que o livro do MEC estaria “sinalizando nova classificação quanto ao uso da língua portuguesa”, deixando de encará-la como certa ou errada, passando a ser vista como adequada ou inadequada. Contudo, a fala já é compreendida como adequada ou inadequada por sociolinguistas há muito tempo.
Também se fala que a cartilha reza que escrevendo corretamente ou errado, tudo será encarado como certo. Isso não está no livro. Há muita gente que pega a informação no ar e já repassa, sem conferir a veracidade. Essas afirmações infundadas sobre o “Por uma vida melhor” são preocupantes.
A todo o momento fazemos construções de frases que, analisadas a fundo, agridem as normas gramaticais. Se estamos entre amigos, tampouco nos preocupamos quanto ao uso de gírias, comemos o “s” do final das palavras, cortamos o enunciado pela metade e concluímos o pensamento com um gesto. Conseguimos nos fazer entender? Claro, sem sombra de dúvidas. Vamos falar da mesma maneira numa entrevista para emprego? Lógico que não. E por quê? Por estarmos numa situação comunicacional totalmente diferente.

A escrita segue uma estrutura fixa, complexa e que não consegue atingir a fala. Porque quando falamos, a gesticulação e as feições faciais interferem muito na compreensão do que é dito. Já na escrita, não. Não tem cara de espanto no texto; no máximo, uma “exclamação”. E o que está impresso pode ser lido tanto em Porto Alegre quanto em Maceió, ao mesmo tempo ou em datas separadas. Daí a importância de se escrever uniformemente, de acordo com regras estanques.

Disso, pode-se depreender que não escrevemos da mesma maneira que falamos. A Semana da Arte Moderna, em 1922, rompeu com a literatura vigente e buscou aproximar-se mais da fala, da realidade. Mas essa “licença poética” dos modernistas do início do século passado servia apenas para romper barreiras de estética, de pensamento. Jamais se intencionou falar e escrever da mesma forma.

Não podemos negar toda a história de vida de quem não teve a oportunidade de estudar quando mais novo e que fala totalmente em desacordo com as normas gramaticais. Precisamos aceitar que a variação linguística utilizada por esses jovens e adultos que retornam aos bancos escolares depois de anos é uma maneira de comunicação. Não se trata de apologia, e sim, de aceitação. Negar esses dialetos seria como tapar o sol com a peneira, confabulando que esses cidadãos sempre falaram escorreitamente.

É papel inegável da escola possibilitar o acesso à forma de prestígio da língua. Se a língua é poder, aprender os meandres gramaticais dela é uma das maneiras de ascensão social que a escola propicia a seus alunos. Mas tudo isso, sem lhes negar a realidade da própria fala. Sem lhes negar quem são.

domingo, 22 de maio de 2011

Um cara chato

Destaque no 3º Concurso Literário Farroupilha 2011, categoria poesia


o passado


deu um oizinho hoje pela manhã


dei tchau


mas ele encontrou-me novamente.


que cara chato.


que nunca vai embora.


que jamais irá.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Pessoal,

se moram em Santiago ou pertinho de lá...
e mesmo para aqueles que vivem longeee...

Não percam a II SEMANA LITERÁRIA DE SANTIAGO, de 8 a 11 de junho, organizada pela Casa do Poeta de Santiago (grande abraço ao presidente Márcio Brasil), em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Santiago e o Projeto Santiago do Boqueirão, seus poetas quem são?
Dentre outras coisas, vai falar sobre o Caio Fernando Abreu e o Oracy Dornelles.

Confere aí no blog do Giovani Pasini:

http://www.giovanipasini.com/2011/05/ii-semana-literaria-de-santiago.html

domingo, 15 de maio de 2011

Troque um Bolsonaro por 354 professores

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 15 de maio de 2011.
Quando decidi fazer o curso de Letras, definitivamente, não tive a aspiração de ser rico. Quiçá de viver bem, com um bom padrão de vida, pois o início da carreira de professor com graduação é um tanto doloroso. Os pouco mais de 500 reais mensais pelas 20 horas semanais de aula propostos pelos editais de muitos concursos a professor da rede municipal no Rio Grande do Sul não pagam a mensalidade de outrora da faculdade.

Onde está o retorno financeiro? Aparece apenas aos poucos que logram um curso de mestrado e ingressam na docência universitária. E olha que, ainda assim, não dá para esbanjar. A grande massa fica apenas com a graduação. Não por escolha, mas por que o bolso é pequeno e não há viabilidade para pagar um curso de maior duração e que, fatalmente, demande mais investimentos financeiros.

O que fazemos com os benditos mil reais para oito horas diárias de trabalho? Antes mesmo do aperfeiçoamento profissional, algumas contas brigam entre si para serem pagas. É aluguel, água, luz, condomínio, IPTU, telefone, rancho, os gastos com passagem (porque o meio de transporte é o ônibus, lógico), e outras despesas inevitáveis para a sobrevivência. Que professor terá condições de investir todo o pouco que resta do capital numa assinatura de revista que desequilibra o orçamento? Não esqueçamos que livros didáticos também não são nem um pouco baratos...

A assinatura anual da revista Nova Escola atinge a cifra de R$ 37,00. Uma revista, definitivamente, feita para os professores. Barata. Porque a National Geographic Brasil custa anualmente R$ 179,88. Aventuras na História, R$ 131,40.

E para assinar uma revista semanária como a Veja, os padrões do professorado indicam, visivelmente, que a solução é fazer um “racha” com os demais colegas da escola e deixar a revista exposta na sala dos professores. Leitura apenas nos intervalos ou após o término das aulas. Quem se interessar por algum assunto, tira uma fotocópia e lê com calma em casa. O valor anual da assinatura? R$ 462,78. Comprando a revista avulsa, o custo anual sobe para R$ 694,20. É um aumento percentual que seria muito bem-vindo no contracheque.

Isso me faz ter mais fé na teoria de que o professor foi moldado por Deus e trazido pela cegonha para viver em comunidade. Porque ele é alguém que não consegue viver sozinho. Necessita estar rodeado de alunos perguntando-lhe, sanando dúvidas, pedindo para ir ao banheiro, implorando para adiar a prova, querendo que a aula seja mais light. Esse ser, indubitavelmente, foi fabricado para viver em grupo. O professor necessita viver com outros, muitos outros seres semelhantes, porque senão, vai à falência.

É mentira que querem uma educação melhor. Gente culta não veste involuntariamente a camiseta de massa de manobra. Gente que consegue subir um pouco mais nos degraus escolares não aceita suborno de candidato a deputado ou vereador por necessidade orgânica de alimentar-se. Aceita por opção, pura falta de caráter.

Em contrapartida, deve-se fazer uma mea culpa: há graves erros na administração de escolas, no repasses de verbas, nos currículos escolares obsoletos, ultrapassados. E há formações familiares precárias que refletem em alunos de difícil relacionamento.

O Juremir Machado escreveu a crônica “Complicada complexidade”, dia 18 de abril, no jornal Correio do Povo, falando que problemas complexos não se resolvem com soluções simples, e sim, com soluções complexas. Seria leviano, realmente, dizer que melhorando o salário do professor o problema educacional estaria resolvido. Quem dera... O reajuste salarial não é a única solução, mas é por ele que as respostas devem passar.

Fica claro que o descaso do Estado com o ensino é motivado pela falta de resultados imediatos. Eles aparecem significativamente depois de anos. A verba que vai para escolas e professores não retorna num primeiro momento, no mesmo mandato. As mudanças são graduais, lentas e dependem do sucesso de todos os fatores.

Estou cada vez mais convicto de que a campanha “troque um deputado por 354 professores” é uma das máximas contemporâneas de maior relevância. Esse cálculo realizado e que circula pela internet contabiliza o salário “mixuruca” dos parlamentares, somado aos vale-passagem aérea, vale-assessor, vale-telefone, vale-tudo que o cargo proporciona, e dá conta dos vencimentos de 354 professores.

Li essa frase há certo tempo, numa corrente recebida por e-mail. Ela também apareceu, numa versão mais atualizada, entre estudantes das Etecs (Escolas Técnicas) e Fatecs (Faculdades de Tecnologia) de São Paulo, que protestaram por reajuste salarial nessa sexta-feira, 13 de maio. Sabiamente, dizia “troque um Bolsonaro por 354 professores”. Uma troca onde o custo-benefício compensa.

sábado, 14 de maio de 2011

Tem vereador defendendo a compra milionária de veículos no Rio de Janeiro, argumentando que não possui carro particular.
Realmente... ele anda a pé/metrô e o povo de Rolls-Royce.

domingo, 1 de maio de 2011

Macaquices na língua portuguesa

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 1º de maio de 2011.

É DIFÍCIL FALAR SOBRE APROVAÇÃO DE LEIS na semana em que o príncipe William e a plebeia Kate Middleton casaram-se. Realmente, torna-se supérfluo falar de uma lei idiota, quando ouvidos e -principalmente!- olhos estão voltados aos detalhes importantíssimos do casamento do ano. Aliás, do século, da história, da galáxia...

Desligando um pouco a mente da Meca do consumismo e do culto às tradições, ressalto a brilhantíssima ideia do deputado estadual do Rio Grande do Sul, Raul Carrion em votar pela “Abolição dos Estrangeirismos”. Se 1888 foi marcado como o ano da assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão, 2011 fixa-se na história gaúcha como o ano em que deixamos de falar mouse e passamos a dizer rato e que saímos do trabalho para fazer uma hora feliz.

Este projeto de lei nasce da necessidade de resguardar a língua portuguesa da invasão indiscriminada e desnecessária de expressões estrangeiras que possuem equivalentes em nosso idioma”, escancarou Carrion em seu site. Esse mesmo senhor que defende o neocolonialismo linguístico, aprovou em 2008 a Semana Estadual do Hip Hop.

O deputado salientou na defesa do seu projeto que o uso de estrangeirismos é "imposição cultural por macaquice". Então, como ele explica a Semana do Hip Hop, através da Lei 13.043, de 30 de setembro de 2008? Evidencia-se a incoerência no discurso retrógrado do deputado, exigindo que termos estrangeiros, dicionarizados, devam ser traduzidos para o português.

Inevitável não o comparar com Policarpo Quaresma, numa versão contemporânea. Enquanto o personagem desmiolado de Lima Barreto lutou até o fim pelo nacionalismo da língua, Carrion também acredita desoportunadamente que devemos falar o português literário e escorreito, tão inatingível quanto as virgens do ultrarromantismo literário. Essa decisão acéfala, infelizmente, recebeu apoio de um quórum de 26 parlamentares. Os outros 24 deputados utilizaram a massa encefálica e votaram contra.

Ora, se estamos em busca de uma língua nacionalista, por que não falamos o tupi-guarani? Uma vez que o nosso português brasileiro tem origem no português de Portugal, evidencia-se que não estamos, efetivamente, buscando as raízes de nosso povo.

Vou dar algumas sugestões ao parlamentar: poderia acrescentar na lei que aprendêssemos o português de 1500, de quando os portugueses chegaram ao Brasil. Ou o latim, origem da nossa língua. Melhor ainda, poderíamos falar a língua indígena, afinal, foram os índios os primeiros habitantes do Brasil.

Esses palpiteiros que procuram instituir algo para promover-se, deveriam expandir o debate à população. Não tenho dúvida de que se houvesse uma discussão do projeto de lei com a sociedade antes de votá-lo, o resultado não seria a aprovação. Opinar é uma coisa, achismo é outra bem diferente.

É lamentável quando pessoas que não têm formação mínima para opinar sobre um assunto e sequer informam-se acerca do mesmo, profanam tolices como o deputado Carrion. Isso me faz lembrar uma observação da profª Dra. Stella Maris Bortoni-Ricardo, em seu livro “Nós cheguemu na escola, e agora?”. Ela citou um artigo do profº José Carlos Azevedo, Ph.D. em Física, onde ele considerava errada a construção “Toda criança na escola”, adotada como slogan do Ministério da Educação em 2005. Orientava a adoção de “Todas as crianças na escola”.

Stella Maris esclareceu que ambos os empregos estão corretos. Finalizou a análise com uma frase que pode ser perfeitamente estendida ao Sr. Carrion: “[...] convém observar que se os Ph.D's em Física começarem a concluir entre seus misteres o de dirimirem dúvidas no uso do português, o governo brasileiro pode começar a economizar os recursos que despende para formar Ph.D's em Letras e Linguística”. Não se trata de “macaquice”, como relatou Carrion, e sim, de cada macaco no seu galho.

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