segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ESPERANDO O ÔNIBUS

Menção Honrosa no Prêmio Literário de Porto Seguro de Contos 2009
Publicado no jornal Letras Santiaguenses Mai/Jun 2009
e na antologia poética do Prêmio Literário de Porto Seguro de Contos 2009

Ambos riam e já fazia uma hora que conversavam compulsivamente. Ela falava com ele e sorria. E dizia mais duas palavras e alargava os lindos lábios de novo. Ele, monossilábico, ria contido e concordava. Piadista era ela, falava muito, todas as suas palavras eram agradáveis.
Então olhou para a frente, sério. Estavam o chamando. A fila andava.
Pagou a conta e retirou-se da lotérica. Era o dinheiro que se tinha ido mais um pouco. E que importava, se estava na companhia dela?
Sentaram no banco à espera do ônibus. Fernanda estava cansada. Recostou sua cabeça no ombro dele e reclamou da estafa. Não fosse esse movimento suave dela, tudo seria normal. Mas por que a cabeça no ombro, se poderia falar-lhe normalmente sem fazer isto?
Ao ouvi-la, procurava fitar seus olhos, num ângulo difícil que formava entre a cabeça apoiada no ombro e os seus olhos, mas não resistia à boca e encarava-a. Que lindos lábios, que carnudos lábios. Sorria, pois isto desarma qualquer um. Estou desarmado. Não me peça para comprar uma roupa cara, pois não saberei dizer não. Não peça para afastar-me de você, não conseguirei. Nem ouse pedir algo impossível. Eu esquecerei este detalhe e irei atrás para dar-lhe.
Entre esses e outros devaneios, Arthur não notou o tempo armar-se e iniciarem os primeiros pingos. Fernanda dormia no seu ombro. Pecado acordar-lhe. Mas o ônibus atrasava e se demorasse pouco mais, ela haveria de molhar-se, ficar resfriada e por dias não se veriam. Ela em casa, doente; ele sem saber onde morava, angustiado por notícias. Tirou sua jaqueta ainda com cheiro de nova enquanto Fernanda acordava, sem entender muito o que ocorria.
Toma, veste isto. O vento está começando e a chuva também. Não quero que você resfrie. Mas e você? Não vou desvestir um santo para que outro vista. Eu me viro, você é mulher. E...? E daí que sou mulher? Você também sente frio. Fique com a jaqueta que me abrigo em você.
Não é a questão de ser mulher. É que você é a minha mulher e não quero que passe frio. Aceite, por favor.
Não disse isso. Não foi por vontade e sim por cautela. Que pensaria ela? Não era hora de declarar-se, nem sabia se era isso que sentia de verdade. Talvez fosse só carência. E um corpo feminino sempre supre a falta de qualquer carinho.
Não falou que era sua mulher, mas ignorou as palavras dela e entregou-lhe a jaqueta.
E não aceito um não.
Muito bem, disse-lhe a moça, se você faz questão, aceito.
Vestiu a jaqueta e esquentou-se. O tempo piorou e o ventou aumentou. Arthur sentiu a espinha gelar, o ar gelado a entrar-lhe pelas canelas, pela gola da camiseta. Ela quentinha, confortável. Não demorou muito para que percebesse a sua condição. Olhou compadecida. Algo estranho ocorria entre eles, mas não conseguia perceber. Algo havia, sim.
A chuva engrossou e os relâmpagos dramatizaram ainda mais a situação. Escurecia e nada do ônibus aparecer. Arthur sentiu o rosto molhar e não havia lugar nenhum para ir, nenhum abrigo melhor que aquele. Estou com medo dos raios. O ônibus não vem nunca. E encostou novamente a cabeça ao ombro dele. Por que, raios, isso? Por que se aconchegava, se não demonstrava o sentimento que desejava?
Então chegou o ônibus. Obrigado pelo casaco.
Pode ficar com ele. Quando você descer do ônibus, vai precisar dele. Mas e você? Eu fico bem assim. Muito obrigado.
Fernanda deu-lhe um tchau, já distante e abanou com a mão direita. Poderia ter sido com um beijo, não?
Subiu as escadas e o ônibus sumiu aos poucos no horizonte.

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