domingo, 1 de maio de 2011

Macaquices na língua portuguesa

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 1º de maio de 2011.

É DIFÍCIL FALAR SOBRE APROVAÇÃO DE LEIS na semana em que o príncipe William e a plebeia Kate Middleton casaram-se. Realmente, torna-se supérfluo falar de uma lei idiota, quando ouvidos e -principalmente!- olhos estão voltados aos detalhes importantíssimos do casamento do ano. Aliás, do século, da história, da galáxia...

Desligando um pouco a mente da Meca do consumismo e do culto às tradições, ressalto a brilhantíssima ideia do deputado estadual do Rio Grande do Sul, Raul Carrion em votar pela “Abolição dos Estrangeirismos”. Se 1888 foi marcado como o ano da assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão, 2011 fixa-se na história gaúcha como o ano em que deixamos de falar mouse e passamos a dizer rato e que saímos do trabalho para fazer uma hora feliz.

Este projeto de lei nasce da necessidade de resguardar a língua portuguesa da invasão indiscriminada e desnecessária de expressões estrangeiras que possuem equivalentes em nosso idioma”, escancarou Carrion em seu site. Esse mesmo senhor que defende o neocolonialismo linguístico, aprovou em 2008 a Semana Estadual do Hip Hop.

O deputado salientou na defesa do seu projeto que o uso de estrangeirismos é "imposição cultural por macaquice". Então, como ele explica a Semana do Hip Hop, através da Lei 13.043, de 30 de setembro de 2008? Evidencia-se a incoerência no discurso retrógrado do deputado, exigindo que termos estrangeiros, dicionarizados, devam ser traduzidos para o português.

Inevitável não o comparar com Policarpo Quaresma, numa versão contemporânea. Enquanto o personagem desmiolado de Lima Barreto lutou até o fim pelo nacionalismo da língua, Carrion também acredita desoportunadamente que devemos falar o português literário e escorreito, tão inatingível quanto as virgens do ultrarromantismo literário. Essa decisão acéfala, infelizmente, recebeu apoio de um quórum de 26 parlamentares. Os outros 24 deputados utilizaram a massa encefálica e votaram contra.

Ora, se estamos em busca de uma língua nacionalista, por que não falamos o tupi-guarani? Uma vez que o nosso português brasileiro tem origem no português de Portugal, evidencia-se que não estamos, efetivamente, buscando as raízes de nosso povo.

Vou dar algumas sugestões ao parlamentar: poderia acrescentar na lei que aprendêssemos o português de 1500, de quando os portugueses chegaram ao Brasil. Ou o latim, origem da nossa língua. Melhor ainda, poderíamos falar a língua indígena, afinal, foram os índios os primeiros habitantes do Brasil.

Esses palpiteiros que procuram instituir algo para promover-se, deveriam expandir o debate à população. Não tenho dúvida de que se houvesse uma discussão do projeto de lei com a sociedade antes de votá-lo, o resultado não seria a aprovação. Opinar é uma coisa, achismo é outra bem diferente.

É lamentável quando pessoas que não têm formação mínima para opinar sobre um assunto e sequer informam-se acerca do mesmo, profanam tolices como o deputado Carrion. Isso me faz lembrar uma observação da profª Dra. Stella Maris Bortoni-Ricardo, em seu livro “Nós cheguemu na escola, e agora?”. Ela citou um artigo do profº José Carlos Azevedo, Ph.D. em Física, onde ele considerava errada a construção “Toda criança na escola”, adotada como slogan do Ministério da Educação em 2005. Orientava a adoção de “Todas as crianças na escola”.

Stella Maris esclareceu que ambos os empregos estão corretos. Finalizou a análise com uma frase que pode ser perfeitamente estendida ao Sr. Carrion: “[...] convém observar que se os Ph.D's em Física começarem a concluir entre seus misteres o de dirimirem dúvidas no uso do português, o governo brasileiro pode começar a economizar os recursos que despende para formar Ph.D's em Letras e Linguística”. Não se trata de “macaquice”, como relatou Carrion, e sim, de cada macaco no seu galho.

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