sábado, 9 de abril de 2011

QUESTIONAMENTOS DE REALENGO

Publicado no Jornal da Cidade Online, em 10 de abril de 2011.


Além do assassino, estou convicto de que outras pessoas sabiam que uma chacina ocorreria na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro, na última quinta-feira. Essa linha de raciocínio parece-me mais coerente que crer que Wellington Menezes de Oliveira pensou em tudo sozinho. Se fosse assim, por que ele destruiria o seu computador? Estando morto, não teria por que temer verem suas informações no PC. Queimou o equipamento porque alguém o convenceu a fazer isso. Quem leu sobre o assunto se consterna e quem viu os vídeos da fuga das crianças, arrepia-se.
Wellington era um jovem introspectivo e, aparentemente, guardava para si os ressentimentos. Ele não era muito sociável, não saía com garotas -possivelmente resultado do seu comportamento- e tinha um gosto musical hardcore, mas não havia nada que despertasse a atenção quanto à periculosidade que representava. Mesmo depois do massacre, muitas questões continuam pairando no ar, sem resposta. Como avaliar que ele era um psicopata em potencial? Onde houve falhas na sua educação que o levou a tornar-se o vilão de uma história que choca pelo requinte de crueldade?
Não se pode colocar a culpa em uma pessoa, apenas. Muita gente cruzou pelo rapaz, durante a sua vida, e ninguém constatou nada além de ser esquizofrênico, vítima de bullying e introspectivo. Poucos argumentos para deduzi-lo como um possível assassino. Se havia uma patologia, a esquizofrenia, por que o Estado não o estava tratando? E a família, como enfrentou esse assunto, se enfrentou?
Já o acesso às armas, alguém que deve ter lhe ensinado a atirar, fornecedores de armamento e munição e “amigos” lhe incitando para que se vingasse das garotas e garotos que outrora lhe humilharam, fizeram dele uma pessoa muito perigosa.
Na sua carta de despedida, deixa claro que era virgem: "...os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos [...] nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão...". Talvez isso tenha relação com o desequilíbrio no número de mortos entre homens e mulheres: 10 meninas e dois meninos. Se tinha problemas com garotas quando era estudante e isso lhe motivou a vingar-se, a desforra ocorreu entre muitas aspas, pois aqueles que lhe humilharam quando criança, hoje são adultos que não estavam no local. E as crianças que ficaram feridas e as que faleceram nunca tiveram relação com os traumas passados.
A violência escolar tem sido ilustrada por alunos batendo em professores, matando-os, e em todos os casos, os motivos são fúteis. Mas chacinas como a de Realengo não haviam ocorrido ainda. A Tasso da Silveira torna-se a primeira escola. Como disse o Juremir Machado em sua crônica no jornal Correio do Povo (jornal de Porto Alegre, RS) de sexta-feira, 8 de abril, entramos para o triste time dos países de chacinas escolares.
Outras nações já foram notícia no mundo sobre atentados em escolas, como a Finlândia e o Canadá. E encabeçando a lista, está os Estados Unidos. Dentre os vários assassinatos ocorridos, os de maior destaque ocorreram em 1999 e 2007. Em 1999, morreram 13 pessoas na escola secundária Columbine, no estado do Colorado. E em 2007, 32 pessoas foram assassinadas na Universidade Virginia Tech, na cidade de Blacksburg, cidade próxima a Washington. Parece uma “onda” norte-americana, onde jovens desequilibrados espelham-se em outros desequilibrados e executam seus planos diabólicos.
Já foram presos dois homens que confessaram terem vendido o armamento ao assassino de Realengo. Aos poucos, a polícia começa a descobrir todos os culpados pelo ocorrido. Porque tão culpado quanto Wellington são aqueles que lhe forneceram armamento, quem o incentivou a cometer os assassinatos e quem ajudou a planejar as execuções.
O país escreve uma mancha vermelha em sua página histórica. Com o amargo gosto de sangue na boca. Ficam os questionamentos: mais segurança nas escolas? Usar detectores de metal, pôr um policial na porta de cada instituição de ensino? E isso tudo resolverá o problema? Os próximos dias serão de muita comoção e de respostas. Respostas sobre Wellington e sobre como anteciparmo-nos a novos episódios lamentáveis como o da escola de Realengo.

Um comentário:

  1. Parabéns. Fiquei realmente emocionada e assim como você, concordo que mais pessoas saberiam que isso iria acontecer. WELLINGTON foi apenas uma peça.
    Muito bom, parabéns.
    Byri

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